11 de dezembro de 2017

Como diferenciar entre pequenas gozações na escola e bullying - e o que fazer em cada caso


BullyingDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionComportamentos repetitivos em que haja desequilíbrio de poder e intenção de humilhar são bullying - e é preciso que adultos intervenham, diz autora
Qualquer gozação ou agressão sofrida por uma criança na escola pode ser considerada bullying?
Para a assistente social e autora americana Signe Whitson, especializada em bullying e gerenciamento de conflitos entre crianças e adolescentes, é preciso aprender a diferenciar entre os comportamentos praticados dentro da escola justamente para não banalizá-los - e para saber como interferir em cada situação.
"Se tudo vira bullying, perde importância - e é o que vejo hoje nas escolas", opina Whitson em entrevista à BBC Brasil.
"A palavra bullying está sendo usada com tanta frequência que as pessoas pararam de prestar atenção. Os professores dizem, 'estou cansado de ouvir isso'. O problema é que há crianças que estão sob risco real e nós não estamos prestando atenção, porque nos cansamos do assunto."
O tema voltou ao debate no Brasil em outubro, quando um adolescente goiano disparou contra colegas dentro da escola, matando dois e ferindo outros quatro, incluindo uma jovem que ficou paraplégica. Ainda investiga-se se ele foi alvo de bullying antes dos atos.
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE), cerca de 195 mil estudantes do 9º ano do ensino fundamental disseram, em 2015, terem sofrido bullying por parte dos colegas.
"Se tratarmos tudo como 'criança é assim mesmo', as deixaremos muito vulneráveis a dores profundas. Sabe-se que o bullying tem sérias consequências de longo prazo. As vítimas têm tendência maior à depressão e ansiedade; os perpetradores têm tendência maior de vício em álcool ou drogas ou de comportamento criminoso", explica Whitson.
"Ou seja, todos os envolvidos necessitam de ajuda adulta, e estamos negando essa ajuda quando minimizamos o fato."
Criança sozinha na escolaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionBullying pode ser agressão física, verbal ou relacional, que faça a vítima se sentir isolada e excluída

'Maldades e grosserias' x bullying

A especialista diferencia, porém, o bullying do que chama de "grosserias" ou "maldades" entre os alunos - práticas que, embora devam ser enfrentadas, têm menor gravidade.
Nessa categoria ela inclui gozações ou desavenças que não cumpram com as três principais características que ela vê no bullying:
1 - O desequilíbrio de poder: é bullying quando um grupo pega no pé de ou exclui uma única criança, ou quando uma criança maior e mais forte alveja uma menor.
2 - A repetição: o bullying costuma ocorrer repetidamente, e não como uma ação isolada.
3 - A intencionalidade: o bullying é uma agressão proposital, feita com o objetivo de humilhar.
Esse espectro inclui agressões físicas e verbais, mas também relacionais - por exemplo, excluir ou isolar alguém socialmente, seja no ambiente escolar ou nas redes sociais. Todas essas ações costumam ter impactos profundos e duradouros tanto nas vítimas como nos praticantes.
Fazer essa distinção não significa minimizar comportamentos agressivos de menor potencial: a crítica de um aluno à aparência do outro, por exemplo, ainda que não tenha caráter repetitivo ou o objetivo de humilhar, pode ser ofensiva. O mesmo pode ser dito de uma agressão física.
Campanha contra bullying em Curitiba, em foto de arquivo
Image captionBullying leva a problemas de longo prazo para vítimas e agressores, incluindo depressão e ansiedade | Foto: SMCS
Além disso, alguns comportamentos de menor gravidade podem, com o tempo, escalonar para o bullying caso não sejam interrompidos.
A diferença, diz Whitson, é que é possível ensinar as próprias crianças a lidar com essas situações menos graves.
"A essência é ensinar as crianças a controlar suas reações. Por exemplo, se estão tirando sarro de você, e você tem uma grande reação emocional - fica com muita raiva, chora -, o perpetrador vai pensar: 'hum, posso controlar você'. E o comportamento se repetirá", explica ela.
"Também ensino as crianças a usar suas vozes: seja assertivo, mas também calmo e respeitoso independentemente de o que digam para você. Faça contato visual (com o agressor) e, em um tom de voz normal, demonstre ser forte, em vez de vulnerável e facilmente intimidado."

Bullying requer intervenção adulta

Casos de bullying, porém, extrapolam a capacidade das crianças e adolescentes de enfrentarem a situação por conta própria. Se há desequilíbrio de poder, intencionalidade e repetição nos atos com a intenção de humilhar, é preciso que adultos reconheçam a gravidade das agressões e intervenham - com cuidado para não agravar o problema.
"No caso de professores, é crucial lidar com o assunto imediatamente, para interromper o comportamento agressor, mas sem sermões longos, que vão apenas envergonhar a vítima, deixá-la mais vulnerável e incentivar o agressor a repetir o comportamento mais tarde", opina Whitson.
Ela sugere algumas frases com que professores podem interromper humilhações em sala de aula: "Não é aceitável dizer isso para ninguém na minha sala. Ficou claro?" ou "Deixar um colega sem grupo não é aceitável. Vamos resolver isso e seguir em frente."
No longo prazo, diz ela, é preciso interromper ciclos de violência dentro da escola - um problema para o qual não há soluções simples ou rápidas. E, nesse processo, é crucial não desistir das "crianças-problema", diz a autora americana.
"É preciso estabelecer conexões fortes com os praticantes de bullying, e em geral ocorre o oposto. Os adultos dizem 'esse menino é problemático, é terrível, não tem jeito'. Isso acaba afastando a criança ainda mais", explica Whitson.
Professora apartando alunosDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionProfessores podem ensinar as crianças a lidarem, entre si, com desavenças de menor potencial
"Trata-se de uma criança que está machucando outras pessoas propositadamente, então temos que fazer alguma conexão com ela. Será que os adultos estão conversando com essa criança, para entender o que está acontecendo com ela, como ela está se sentindo, se entende como suas ações estão afetando os demais? Ou será que os adultos estão partindo diretamente para a punição?"
"Quando os adultos conversam de verdade com as crianças e as fazem entender o impacto de suas ações, conseguem mudanças, empatia. Ao mesmo tempo, é preciso dar reconhecimento a quem pratica a gentileza. Os jovens que param o que estão fazendo para ajudar um colega com a lição de casa ou que se sentam ao lado de um colega que está sozinho merecem tanto reconhecimento quanto ao que costumamos dar aqui nos EUA aos alunos que se destacam nos esportes, por exemplo."

O papel dos pais

Segundo Whitson, ainda é comum que pais de vítimas de bullying ou de agressões cotidianas pratiquem dois tipos de comportamento que ela considera contraproducentes.
O primeiro é minimizar as agressões ou deixar as crianças lidarem com elas por conta própria; o segundo é exagerar na reação a qualquer briga dos filhos, já exigindo uma reparação por parte da escola ou da criança agressora e talvez expondo o próprio filho ainda mais.
"Nenhum desses comportamentos ajuda o seu filho", opina Whitson.
"Acho que o papel dos pais é dar muito apoio e ser um bom ouvinte: escutar o filho, acreditar nele, abraçar, dar conforto e daí ajudar na resolução de problemas. 'Ok, vamos pensar juntos: como vamos lidar com isso? O que você pode dizer ou fazer em determinada situação? O que você vai responder se seu colega disser tal coisa? Com quem você pode sentar para não se sentir vulnerável?'".

Como a omissão do termo ‘gênero’ na base curricular afeta os livros didáticos

≈ André Cabette Fábio 10 Dez 2017 (atualizado 10/Dez 01h12)

 Segundo consultora educacional, editoras têm se esforçado para se adequar às mudanças do governo e evitar críticas conservadoras 

FOTO: MARCELLO CASAL JR/AGÊNCIA BRASIL ALUNOS DE COLÉGIO DE BRASÍLIA MOSTRAM LIVROS DIDÁTICOS ADQUIRIDOS PELO GOVERNO,


   Desde 2013, o Brasil vem dando passos para elaborar a sua Base Nacional Comum Curricular, um documento que determina o conteúdo mínimo que deve ser lecionado em cada etapa da educação básica, tanto por escolas públicas quanto privadas. Ao contrário de países como Estados Unidos e Finlândia, o Brasil nunca teve um documento do tipo, o que contribui para que o conteúdo seja transmitido de maneira desigual. Em abril de 2017, o Ministério da Educação entregou a terceira versão desse documento para análise do CNE (Conselho Nacional de Educação), que precisa aprová-lo para que passe a valer. Naquele momento, o governo realizou mudanças em relação às versões anteriores, elaboradas durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff. Sob o comando de Temer, foram retiradas referências aos termos “identidade de gênero” e “orientação sexual”.

 Segundo informações do jornal Folha de S.Paulo, o governo concluiu no final de novembro uma quarta versão da Base Nacional Comum Curricular. Dessa vez, foram excluídos no mínimo dez trechos que mencionavam gênero, entre eles alguns que abordavam especificamente a necessidade de um ensino sem preconceitos. Em um trecho da introdução do documento, por exemplo, o governo afirmava que educadores deveriam promover respeito ao outro, “sem preconceitos de origem, etnia, gênero, idade, habilidade/necessidade, convicção religiosa ou de qualquer outra natureza, reconhecendo-se como parte de uma coletividade com a qual deve se comprometer”. Após a alteração, na quarta versão, o documento passa a falar apenas em promover respeito “sem preconceitos de qualquer natureza”. 

A última versão foi entregue ao Conselho Nacional de Educação em 29 de novembro. Na quinta-feira (7), o CNE aprovou regime de urgência para a tramitação da resolução que institui oficialmente a base curricular. Ainda não há, no entanto, uma data para a votação, e é possível que isso ocorra apenas em 2018. Além de servir como referência para a atuação dos professores, o documento servirá de base para editoras que elaboram livros didáticos. Por exemplo: a terceira versão do documento já é usada como parâmetro em um edital do Ministério da Educação, publicado  em junho de 2017, para a compra de livros pelo governo como parte do PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) do ano letivo de 2019. O documento afirma que “este edital irá utilizar esta versão como critério, mesmo entendendo que a versão final da BNCC depende da discussão e aprovação do Conselho Nacional de Educação”. Esse edital continua valendo, apesar de a terceira versão da base curricular ter sido descartada e substituída pela quarta versão. O governo é hoje o grande comprador de livros do país, em parte por meio do PNLD – que tem cerca de um edital por ano. Segundo o “Painel das Vendas de Livros no Brasil” relativo a 2016, um documento do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, foram vendidos 4.904.960 de exemplares naquele ano. Desse total, 23% eram obras infantis, juvenis ou educacionais. De acordo com reportagem da revista Época de dezembro de 2017, metade de todas as vendas de livros no Brasil são feitas ao governo, que não compra apenas material didático, mas também livros de ficção empregados em sala de aula ou disponibilizados aos estudantes. Esse é um mercado concentrado. 

Um estudo de 2011 elaborado por encomenda do Centro de Estudos da Consultoria do Senado, destacava oito parceiras principais: Ática e Scipione (ambas fazem parte do grupo Somos Educação), Brasil, Ibep, FTD, Nacional, Saraiva e Moderna. O Nexo conversou com a professora Maria José Nóbrega sobre como as alterações na Base Nacional Curricular Comum afetam a produção de livros didáticos no país. Ela já trabalhou em programas de formação continuada junto ao MEC e às Secretarias de Educação do Estado de São Paulo e do Município de São Paulo. Atualmente, presta consultoria junto a escolas, assim como em editoras, onde trabalha na elaboração de livros didáticos em língua portuguesa. Como a BNCC influencia a produção de livros didáticos? MARIA JOSÉ NÓBREGA Somos uma federação, e cada estado tem sua proposta curricular regulando as escolas estaduais. Mas a proposta curricular do estado de São Paulo não precisa ser seguida pela rede particular. O que a base [nacional comum curricular] faz é criar um parâmetro para todas as redes. Isso é novo e, teoricamente, orienta a política de avaliação do livro didático, que já está aí. Uma das formas que isso acontece é por meio do Plano Nacional de Livros Didáticos. Na última edição, voltada para o período entre o 1º e o  5º ano do ensino fundamental, o governo determinou que as editoras deveriam obedecer as determinações do que estava na terceira versão da base [comum curricular]. As editoras estão bastante preocupadas, organizando seminários internos e trazendo pessoas do próprio MEC para tentar se adequar. Isso nas grandes, porque as pequenas não têm como se adequar a isso rapidamente. No caso de língua portuguesa, por exemplo, propunha-se [na terceira versão da BNCC] que as atividades de leitura e escrita se fizessem com textos não ficcionais, e a literatura em segundo plano. Também incluiu-se um conteúdo gramatical nos anos iniciais, quando não se costumava tratar do tema. Participei de um evento na USP entre editoras e representantes do MEC. Esses representantes disserem que as editoras têm o direito de fazer o que quiserem, e o MEC tem o direito a comprar o que quiser. Ou seja, se não fizer o livro de acordo com a base, ele não será adquirido, e as editoras estavam correndo para fazer os ajustes de forma acelerada para responder à demanda. Como você vê a omissão do termo ‘gênero’ na BNCC? MARIA JOSÉ NÓBREGA Da segunda para a terceira versão, o termo já havia sido esvaziado. Antes, quando você falava de direitos, explicitava o direito das minorias, e agora isso é omitido. Uma coisa que é importante lembrar é que essa discussão de gênero e orientação já estava nos parâmetros curriculares elaborados na década de 1990, sob o governo de Fernando Henrique Cardoso. Você tinha os chamados temas transversais, e sexualidade era um deles. Essa discussão podia entrar na área de ciências naturais, quando se discutia o corpo humano, e outra em língua portuguesa, quando falava de “brincadeira de menino” ou “de menina”, e discutia as representações de como cada um pode brincar. Mais de 20 anos depois, você encontra retrocesso em relação a temas que afetam humanos de um modo geral e que já estavam assegurados no debate das escolas – a questão da sexualidade, a da figura do homem e da mulher. A minha área é de língua portuguesa, e isso toca na seleção de textos, que já vinha se tornando uma questão difícil, não só no que diz respeito a gênero e sexualidade. Você tem perseguição forte a textos que lidem com a mitologia dos orixás, porque isso pode ser entendido como um conteúdo demoníaco pela bancada evangélica, por exemplo. O que observamos é que alguns temas estão um pouco no foco dessa atuação de grupos como Escola Sem Partido e MBL (Movimento Brasil Livre), que escolhem isso como pauta não só na educação, como na área cultural.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/12/10/Como-a-omiss%C3%A3o-do-termo-%E2%80%98g%C3%AAnero%E2%80%99-na-base-curricular-afeta-os-livros-did%C3%A1ticos

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Jovem negra tem 2 vezes mais chances de ser morta no Brasil, diz relatório

Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência traz recorte de gênero 

pela primeira vez. Entre os homens, risco de jovem negro ser 

assassinado é 2,7 vezes maior que de um jovem branco.

Por G1
 

Marcha das Mulheres Negras no Rio de Janeiro, em julho (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)Marcha das Mulheres Negras no Rio de Janeiro, em julho (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Marcha das Mulheres Negras no Rio de Janeiro, em julho (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
As negras com idade entre 15 e 29 anos têm 2,19 vezes mais chances de serem assassinadas no Brasil do que as brancas na mesma faixa etária, de acordo com o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência 2017 (IVJ 2017), divulgado nesta segunda-feira (11).
O IVJ 2017 traz dados de 2015 e foi elaborado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), pela Secretaria Nacional de Juventude da Presidência da República e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Jovens negros têm risco maior de serem assassinados, diz estudo
O índice agrega dados como frequência escolar, escolaridade, inserção no mercado de trabalho e taxas de mortalidade por homicídios e por acidentes de trânsito.
No topo da desigualdade entre as taxas de homicídio estão os estados do Rio Grande do Norte, no qual as jovens negras morrem 8,11 vezes mais do que as jovens brancas, e do Amazonas, cujo risco relativo é de 6,97 (o risco relativo é a variável que considera as diferenças de mortalidade entre brancos e negros).
Em terceiro lugar aparece a Paraíba, onde a chance de uma jovem negra ser assassinada é 5,65 vezes maior do que a de uma jovem branca. Em quarto lugar vem o Distrito Federal, com risco relativo de 4,72.
Nos estados de Alagoas e Roraima não foi possível calcular a razão entre as duas taxas por não ter sido registrado nenhum homicídio de mulher branca nessa faixa etária em 2015. As taxas de mortalidade entre jovens negras nesses estados, no entanto, foram altas: 10,7 e 9,5 mortes por 100 mil habitantes, respectivamente.
Mortes de jovens negras e brancas no Brasil, por estado (Foto: Reprodução/IVJ 2017)Mortes de jovens negras e brancas no Brasil, por estado (Foto: Reprodução/IVJ 2017)
Mortes de jovens negras e brancas no Brasil, por estado (Foto: Reprodução/IVJ 2017)
Entre os homens, a chance de um jovem negro ser assassinado é 2,7 vezes superior à de um jovem branco. O índice é maior que o registrado no levantamento divulgado em 2015.
A situação mais preocupante é a de Alagoas, onde um jovem negro tem 12,7 vezes mais chances de morrer assassinado do que um jovem branco. Na Paraíba essa diferença é de 8,9 vezes, índice também muito alto.
Para a representante da Unesco no Brasil, Marlova Jovchelovitch Noleto, “a violência contra a juventude negra no Brasil atingiu índices alarmantes”.
“[Essa violência]precisa ser enfrentada com políticas públicas estruturadas que envolvam as diversas dimensões da vida dos jovens como educação, trabalho, família, saúde, renda, igualdade racial e oportunidades”, diz Noleto em texto que integra o relatório.

Escravidão e racismo

O documento lembra que o Brasil foi o último país do mundo a abolir oficialmente a escravidão, em 1888 --quando os negros já eram cerca de 50% da população--, mas ressalta que a abolição não significou a possibilidade de inserção no mercado de trabalho para essa população, que exercia trabalhos precários e, em geral, nas zonas rurais, enquanto os imigrantes europeus eram absorvidos por fábricas em centros urbanos, em meio ao avanço do processo de industrialização.
A partir dos resultados do levantamento, o IVJ 2017 conclui que os índices “evidenciam a brutal desigualdade que atinge negros e negras até na hora da morte”.
“Essa desigualdade se manifesta ao longo de toda a vida e em diversos indicadores socioeconômicos, em uma combinação perversa de vulnerabilidade social e racismo que os acompanha durante toda a vida. Não à toa, negros e negras ainda sofrem com enormes disparidades salariais no mercado de trabalho: dados recentes divulgados pelo IBGE mostram que negros ganham 59% dos rendimentos de brancos (2016)”, diz o documento.
“Assumir que a violência letal está fortemente endereçada à população negra e que este é um componente que se associa a uma série de desigualdades socioeconômicas é o primeiro passo para o desenvolvimento de políticas públicas focalizadas e ações afirmativas que sejam capazes de dirimir essas inequidades”, conclui o texto.