23 de abril de 2012

Agressão em tempo real:Violencias nas escolas,cyberbullying


Correio Brasiliense, Abril 23, 2012

Por meio das redes sociais, ataques que humilham e ameaçam professores se espalham pela internet
» PAULA FILIZOLA

O acesso fácil e quase sempre sem o controle dos pais transformou redes sociais como Twitter, Facebook e Orkut em uma poderosa ferramenta sem filtro para as agressões e ameaças a professores. Cada vez mais conectados, crianças e adolescentes irritados com seus professores usam seus perfis na internet como principal plataforma para xingar e até ameaçar docentes. O cyberbullying, como é conhecido o fenômeno de humilhar e ridicularizar pessoas na grande rede, já é considerado uma forma de agressão que também preocupa educadores. Porém, por ser uma prática relativamente nova, especialistas explicam que ainda não há diagnósticos consistentes para avaliar o problema. Segundo eles, é ainda mais difícil coibir e punir os infratores no mundo virtual.
Professores afirmam que já foram vítimas ou conhecem pessoas que foram alvo de agressões na internet. O docente Hudson Paiva, de 33 anos, vê as redes sociais como um estímulo para as agressões físicas na escola. "O alcance é muito grande. Quando a agressão, a discriminação e a falta de respeito começam na rede, logo geram comentários e podem influenciar atitudes reais", avalia. As motivações para o cyberbullying são corriqueiras, a exemplo de muitas agressões físicas. Os alunos reclamam de notas baixas, aulas chatas, broncas recebidas em sala de aula.
O professor de história e geografia William Fogaça, de 51 anos, mantém alunos como amigos nas redes sociais. Mas conta que foi orientado pela direção da escola a não fazer isso. "Nas redes sociais ficamos mais expostos", analisa. Apesar de já ter sido ameaçado algumas vezes pessoalmente, ele conta que nunca sofreu ataques pela internet. Mas, segundo William, a prática é comum hoje nas escolas. Defende que cabe ao professor avaliar a seriedade das ameaças virtuais. "Se fosse comigo, eu levaria em conta o perfil do aluno em sala para mensurar até onde ele iria de fato. Caso os agressores fossem alunos indisciplinados, como os que já me ameaçaram na escola, eu levaria rapidamente a denúncia à delegacia."
Especialista em tecnologias da educação e professor da Universidade de Brasília (UnB), Gilberto Lacerda afirma que as redes sociais têm propiciado o aumento da violência contra educadores e alunos, o que seria um fenômeno mundial. "Associamos esse crescimento à facilidade de acesso e também porque, dessa forma, os agressores se sentem mais seguros e de certa forma anônimos", explica. O fenômeno é ainda mais sério na internet, já que as agressões se tornam mais e mais pesadas, à medida que ocorre um acúmulo de vozes por meio das comunidades e páginas criadas com agressões e até ameaças. "A internet é um palco amplo para manifestação e, por isso, ela amplia as possibilidades de ataques", avalia.
A solução, apontam educadores, é o diálogo entre escola, pais e alunos. Para o professor da UnB, o combate tem que ser feito com a ampla divulgação do assunto. "A ideia é que as escolas coloquem o tema em pauta para os alunos entenderem a complexidade dos atos. Mas sabemos que não tem como impedir", diz Lacerda. Já o coordenador de Educação da Unesco, Paolo Fontani, aposta em soluções preventivas. "Precisamos trabalhar mais profundamente as causas e os sintomas. Se o problema é discriminação, temos que entender o porquê", analisa. Para ele, o Ministério da Educação, o Conselho Nacional de Educação e a Secretaria de Direitos Humanos deveriam ter diretrizes que contemplassem elementos de tolerância e convivência escolar para evitar casos de bullying e cyberbullying.
A prática de agressão nas redes pode ser enquadrada como crime virtual. A vítima do cyberbullying pode registrar ocorrência em delegacias e pedir sanções penais. Caso o autor das ofensas tenha menos de 16 anos, os pais serão processados por injúria, calúnia e difamação; se tiver entre 16 e 18 anos, responderá com os pais; e, se for maior, assumirá a responsabilidade pelos crimes.
Colaboraram Larissa Leite e Grasielle Castro
"A agressão e a discriminação na rede podem influenciar atitudes reais" Hudson Paiva, professor Memória



Punição exemplar
No fim de março, um estudante de 16 anos do ensino médio da rede estadual de Londrina, no Paraná, usou seu perfil no Facebook para fazer um desabafo contra os inúmeros trabalhos escolares passados em época de vestibular. Em sua conta, o garoto escreveu que gostaria de "atear fogo" na professora de artes, que tinha passado mais uma tarefa. O pai do aluno fez o jovem se retratar nas redes sociais, apagar seu perfil e publicar um pedido de desculpas nos classificados do Jornal de Londrina. Na publicação, o aluno pediu perdão à professora Rosana Marques Franco "por ter postado um comentário maldoso em um momento impensado". O post na internet repercutiu e foi encarado, pela direção da escola, como cyberbullying. Na ocasião, a professora disse ter ficado assustada por se lembrar do caso de Realengo, no Rio de Janeiro, quando um ex-aluno invadiu a Escola Tasso da Silveira, disparou contra professores e alunos e matou 12 crianças. "Uma palavra, escrita ou dita, é lançada, e aí não tem retorno. Pode machucar, às vezes, mais do que uma agressão física", afirmou o pai do menino.

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