13 de dezembro de 2014

HÉLIO SCHWARTSMAN Faces do racismo


SÃO PAULO - Alguns leitores me escreveram contestando a coluna de sábado, na qual eu afirmei que o racismo ainda é um elemento decisivo no destino dos negros norte-americanos. Eles retrucaram argumentando que atitudes dos próprios negros, como não valorizar a educação, importam muito mais do que eventuais atos discriminatórios.
É uma tese interessante. Um de seus principais defensores é o economista Walter Williams, da Universidade George Mason. Para ele, o racismo explica pouco. O atraso educacional dos negros, por exemplo, teria mais a ver com famílias desestruturadas, que não cobram lições de casa nem exigem respeito aos professores, do que com a distribuição de verbas escolares. Como Williams é negro e passou a juventude combatendo as "Jim Crow laws", as leis de discriminação racial então em vigor, fica difícil descartar suas conclusões apenas como uma opinião racista.
Acredito que há méritos em trabalhos como os de Williams. Em sociologia, dificilmente vamos encontrar uma causa única para qualquer fenômeno. Penso, porém, que seria precipitado exonerar o racismo desde já.
Entre as "Jim Crow laws" e um mundo sem discriminação racial, temos um contínuo que não se resolve no espaço de uma ou duas gerações. É verdade que hoje é raro encontrar o tipo Klu Klux Klan, que veste lençóis e agride negros fisicamente.
Receio, porém, que o racismo implícito, isto é, inconsciente, ainda seja alto. A psicóloga Mahzarin Banaji, cujo trabalho já comentei aqui, estima que até 75% dos americanos manifestem preferência automática por brancos. E, para ela, essa é a nova face do racismo. Em vez de envolver atos que prejudicam membros de outro grupo, ele assume cada vez mais a forma de favorecimento a membros do próprio grupo. Se um policial flagra um garoto cometendo um ilícito que poderia levá-lo à cadeia, tem maior chance de fazer vistas grossas se o menino for branco.

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