19 de outubro de 2017

Professores que estão combatendo a violência nas escolas públicas

Revista Claudia, 19/10/17
(no olvidar en ningún momento las violencias sufridas popr los alumnos!)

Tinha tudo para ser mais um dia difícil na conturbada rotina da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Pequenina Calixto, em Paraty, no litoral do Rio de Janeiro. E foi. A professora de artes Carlota Galvão, 46 anos, orientava uma turma do 6º ano quando percebeu que um dos garotos filmava as meninas com o celular. Carlota pediu o aparelho, mas o jovem não entregou. “Se você me der o telefone agora, eu o devolvo ao final da aula. Do contrário, vou recolher e só entrego a algum responsável por você”, disse com firmeza.
(Daniella Paoliello/Gabriel Marques/CLAUDIA)
O impasse estava criado. Na negativa do aluno ao pedido, ela teria de tomar uma atitude mais dura contra um menino que, apesar de ter apenas 13 anos, atuava para a quadrilha que controla o tráfico de drogas na região. Os colegas em volta passaram a ameaçar Carlota.
“Somos irmãos dos que cortaram a cabeça e vamos te pegar lá fora”, disseram. Faziam referência a um crime ocorrido na semana anterior, numa favela próxima. William de Azevedo, 30 anos, fora decapitado porque teria beijado a namorada do chefe de uma quadrilha. A cabeça acabou exibida como troféu pelas ruas e usada como bola de futebol.
Carlota argumentou que aquilo seria tolice. Estava ali para ajudá-los a construir uma vida melhor e esperava que eles aproveitassem a chance. Um dos meninos começou a defendê-la e, finalmente, o que iniciara o conflito entregou o celular.
No embate, a educadora se manteve calma. Mas, assim que o sinal tocou, ela desabou na sala dos professores. “Eu não tenho estrutura para isso’’, desabafou aos prantos a professora que tem 18 anos dedicados ao magistério. “Vivemos com medo, sob ameaça o tempo todo.”
O episódio aconteceu em março, na maior escola municipal de Paraty. Mas poderia ter sido em qualquer outra cidade. Diariamente, milhares de educadores passam por situações semelhantes. E muitas terminam de forma trágica, com sangue, como aconteceu com Márcia Friggi, na catarinense Indaial, no dia 21 de agosto.
Após retirar da sala um estudante de 15 anos que a havia desrespeitado, foi atacada a socos e pontapés e jogada contra a parede. Publicada no Facebook, a foto do rosto ferido da educadora despertou o Brasil para uma realidade estarrecedora.
A Prova Brasil, aplicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostra que, em 2015, o quadro era sombrio: 4 714 professores declararam ter sofrido algum tipo de atentado à vida, 22 692 foram ameaçados por estudantes e 132 244 (ou 51% dos entrevistados) presenciaram agressões físicas ou verbais entre alunos.
A invasão do ambiente escolar pela violência se revela também nos relatos de docentes que viram, em suas turmas, jovens embriagados (13 015 relatos), sob efeito de drogas ilícitas (29 737) e armados (12 078 com armas brancas e 2 365 portando armas de fogo).
Em setembro, o jornal Folha de S.Paulo publicou um levantamento baseado em 178 boletins de ocorrência registrados por educadores no primeiro semestre deste ano. Ele mostrou que o estado de São Paulo tem uma média diária de dois professores agredidos em sala de aula. Em ao menos um em cada quatro casos, o aluno é apontado como o agressor.
Mais do que um número do Inep, a situação da mestra de Paraty é o retrato da vida real. E os problemas na Pequenina Calixto refletem uma cidade que, apesar de ter só 40 mil habitantes, está entre as 50 mais violentas do Brasil, com índice de homicídios de 60,9 para cada 100 mil habitantes, conforme dados do Mapa da Violência de 2016.
Se não bastasse estar instalada numa zona conflagrada pelo crime, essa escola viu, no início do ano, o quadro de pessoal reduzir-se em 50%, pois a prefeitura demitiu os servidores não concursados. Alunos sem aulas por falta de professores vagavam pelos pátios sem inspetores. Tornaram-se comuns as agressões entre estudantes, o recrutamento forçado de jovens pelo tráfico e as ameaças a docentes e funcionários. Carlota procurou ajuda.
Pedagogia da emergência
Convidada por uma colega, ela se uniu a um grupo de educadores formado pela Escola Comunitária Cirandas, projeto sem fins lucrativos que se dedica à melhoria da educação em Paraty. Lá, ela foi apresentada à pedagogia da emergência, abordagem baseada na antroposofia e na pedagogia Waldorf que trabalha com o resgate emocional de jovens expostos a situações de risco. “No início, eu ouvia o que os formadores ensinavam e achava tudo muito fofo”, brinca.
“Não acreditava que aquilo pudesse funcionar na minha turma.” Até que ela decidiu pôr em prática o que estava aprendendo. Carlota via potencial em um menino de 15 anos que cursa o 6º ano. O jovem, porém, tumultuava o ambiente e se valia do fato de pertencer às gangues para escapar de punições. “Os formadores me orientaram a transformá-lo em líder”, explica. “Ele precisava chamar a atenção. Assim que conseguiu, tudo mudou. Participava das aulas e parou com as ameaças.”
No dia 22 de agosto, o trabalho iniciado pela professora foi afetado por uma mudança radical na rotina. Com problemas estruturais no telhado, a Pequenina Calixto foi interditada pela Defesa Civil. Redistribuídos entre outras quatro escolas do município, muitos estudantes deixaram as aulas. “Um menino envolvido com uma gangue não pode aparecer em região dominada por grupos rivais.
A evasão cresceu muito.” Ela leciona agora em três endereços. As turmas, que eram de 30 estudantes, minguaram para oito ou dez. Ou seja, quando a escola voltar a funcionar, a professora terá que recomeçar o esforço.
A abordagem tem na prevenção uma das medidas de contenção. Segundo a pedagoga Telma Vinha, doutora em psicologia, desenvolvimento humano e educação pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a situação se agrava quando se tenta impor algo que o aluno considera arbitrário. “A agressão ocorre quando o jovem é mandado para fora da sala. É possível evitar que a situação chegue a esse ponto.” Telma lista quatro passos importantes para a prevenção:
• Mudança no planejamento para a aula fazer sentido para o jovem. “O comportamento de ruptura acontece quando há desinteresse”, explica. “Se a aula leva em conta a realidade dele e é interessante, o aluno participa e causa menos problemas.”
• Criação de alternativas positivas à violência – a única forma de se manifestar que ele conhece. O protagonismo e a liderança, aprendidos em peças de teatro ou em debates, ensinam a substituir a agressividade por outras formas de expressão.
• Desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais para ensinar a ser justo, 
a respeitar e a ser respeitado. “O jovem precisa saber identificar, regular e expressar suas emoções de forma a não magoar os outros”, diz Telma. “É legítimo sentir raiva, o que não pode é tocar o outro.”
• Discutir com o grupo questões de convivência e elaborar regras diante de cada dificuldade. “Em assembleias quinzenais, por exemplo, pode-se discutir crises, combinar regras e avaliar como elas estão funcionando”, sugere.
Essas técnicas preventivas fazem parte da rotina de Joaquim Araújo, 40 anos, que há 20 dá aulas de artes em Fortaleza. Responsável por uma turma de ensino médio na Escola Estadual de ensino Fundamental e Médio Jocie Caminha de Menezes, Joaquim usa a mediação diariamente. “O conflito, em si, não é ruim, porque nos ensina a lidar com a adversidade”, explica Joaquim.
(Daniella Paoliello/Gabriel Marques/CLAUDIA)
“Nós precisamos saber trabalhar isso para evitar que o caso termine em agressões.” Sempre que um problema surge, o professor para a aula e estabelece um fórum. Sentados em roda – formato que ele adota como padrão nas aulas –, começam o debate. Quem assistiu à briga narra o que viu. “Enquanto esfriam os ânimos, as partes envolvidas, sejam dois jovens ou o estudante e o professor, veem como os outros perceberam a atuação deles”, conta Joaquim.
Em seguida, os que não agiram bem têm a oportunidade de explicar seus pontos de vista. “Eles notam os exageros que cometeram ao ouvir os demais.” Segue, então, o momento das reparações, em que as partes se desculpam, sem que ninguém seja exposto a humilhação. E estabelecem-se acordos para evitar a repetição do problema.
Graças a esse modelo, Joaquim não precisa lidar mais com ataques. “Não é um mar de rosas. Às vezes os meninos chegam de cabeça quente porque a situação do entorno é difícil”, diz. A Jocie fica na região do bairro Bom Jardim, o mais truculento de Fortaleza – a capital mais violenta do Brasil, segundo o Atlas da Violência divulgado este ano pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), com taxa de 78,1 homicídios para cada 100 mil habitantes. “Não podemos fechar os olhos para essa realidade.
Os jovens precisam sentir que nos preocupamos com eles e queremos ajudá-los”, afirma. Além da mediação, Joaquim planeja as aulas em conjunto com a turma para integrar a vida deles ao currículo. Para isso, recorre às técnicas do Teatro do Oprimido, desenvolvido pelo teatrólogo Augusto Boal (morto em 2009). Episódios do cotidiano da comunidade são interpretados. “Eles sentem as diferentes emoções envolvidas em um fato, aprendem a analisar pontos de vista diversos, enriquecem a capacidade de sentir e de olhar para o outro.”
A experiência de Joaquim começou a ganhar adeptos. Outros docentes passaram a adotar a prática da mediação com apoio da direção da escola. Para quebrar o paradigma da linguagem violenta, as salas de aulas foram batizadas com palavras que expressam gentileza. “Temos a sala do amor, a da afetividade”, conta. “É um processo lento, muitos colegas ainda resistem, mas os gestores estão abertos à mudança.”
Não é caso de polícia
Telma Vinha discorda das abordagens que tentam transferir a responsabilidade para a esfera da Segurança Pública. Solucionar a questão, Telma insiste, é papel da escola. “Não adianta instalar câmeras, detectores de metal, aumentar o policiamento”, afirma.
“Enquanto a escola não mudar institucionalmente, não vai funcionar bem.” Para a especialista, as transformações na sociedade tornaram as relações mais horizontais e diminuíram o poder da autoridade.
A escola, porém, continua brigando por tudo: a hora de chegar, a hora de ir ao banheiro, a cor da meia que está diferente do uniforme. “Isso desgasta a autoridade, e o aluno perde o respeito por tudo, inclusive pelas regras que realmente importam”, defende Telma.
O docente, porém, não está preparado, não recebe formação nem respaldo para lidar com o conflito. “Ele fica preso a procedimentos antigos, como mandar para a sala da coordenação, suspender, expulsar”, diz Telma.
“Sem preparo, o professor acaba adoecendo.” Um levantamento da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo – maior rede do país, com 220 mil docentes – revelou que 136 mil afastamentos em 2015 por questões de saúde foram concedidos – 27,8% das licenças ocorreram por transtornos mentais, stress e depressão.
A vida é comunitária
Na periferia de Belo Horizonte, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Anne Frank envolve seus 797 estudantes com a história e a rotina do Conjunto Confisco, onde está instalada. “Aqui sempre foi o lugar das assembleias do bairro, dos velórios, das missas”, conta a diretora Sandra Mara de Oliveira Vicente, 53 anos. “Fazemos questão de manter essa ligação porque ela é fundamental para o sucesso da escola.” Sandra, que chegou à Anne Frank há 26 anos, é uma educadora ativa.
Circula o tempo todo, prova a merenda, checa o estado dos equipamentos, conversa com a equipe, ouve o que os estudantes têm a dizer. “Temos conflitos, eles são parte da educação. O professor faz a mediação para construir, com toda a turma, uma solução.” A unidade lida com crianças em situação de risco. Algumas estão envolvidas com o crime, outras são vítimas de abuso.
“Tentamos acolher os alunos e suas famílias porque a escola precisa fazer diferença na vida deles, ser o lugar onde aprendem e se sentem seguros.” Para fortalecer seu papel na comunidade, a Anne Frank participa de uma rede de representantes do poder público no bairro, que reúne o batalhão da Polícia Militar, a Defensoria Pública, o Centro de Saúde Municipal e o Centro Cultural. “Em reuniões mensais, propomos atividades culturais e soluções para problemas do território”, explica Sandra.
Em sala de aula, projetos integram a realidade dos jovens aos conteúdos acadêmicos. Um deles, conduzido em 2016 por Moacir Fagundes Freitas, que leciona história, recebeu o Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos, concedido pelo Ministério da Educação e pela Organização de Estados Ibero-Americanos. Intitulado Entre o Diário e a HQ: Estudantes Construindo a História de um Bairro, o projeto levou o 7º ano a pesquisar as origens do Confisco e a recontá-las no formato de história em quadrinhos. “Alguns jovens tinham vergonha de morar aqui”, conta Freitas.
“Iniciamos o projeto com a leitura de O Diário de Anne Frank, porque a gente trabalha com o ideário dela, que é a luta contra a violência, o preconceito, a discriminação. O nosso bairro não deixa de ser uma espécie de gueto”, explica.
Os alunos fizeram uma pesquisa de opinião entre moradores para saber o que eles pensavam sobre o lugar. Também identificaram dez mulheres que haviam participado da fundação do bairro e as entrevistaram. “A percepção deles foi se modificando”, relata o professor. “Quando procurávamos notícias que os jornais publicam sobre o Confisco, eles já estavam se indignando com a forma como o bairro deles era retratado na mídia.”
Na hora de construir a história em quadrinhos, Freitas conseguiu o apoio de dois quadrinhistas, que deram oficinas de desenho. Além do gibi, a turma fotografou o bairro. Das 700 imagens registradas, o professor escolheu 50 e montou a exposição Confisco pelo Confisco. A mostra ganhou um edital da Universidade Federal de Minas Gerais e foi exibida ao público no Circuito Cultural Praça da Liberdade, um dos pontos turísticos mais nobres de Belo Horizonte.
“Não vou esquecer a alegria dos estudantes ao ver seus nomes no painel”, relata o mestre. Anne Frank está livre de agressões? “Claro que não. Outro dia, um menino agrediu uma colega de sala e eu tive de mediar o conflito”, recorda o professor. “Educação é um processo contínuo, não acaba nunca. Os desafios vão e voltam. Sabemos disso e aprendemos a dialogar sempre.”

Maioria que conclui ensino superior ganha salário abaixo de R$ 3 mil


O levantamento foi divulgado ontem (18), em São Paulo, pelo Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp)
Em todo o País, entre os profissionais que concluíram o ensino superior nos últimos dois anos, a maior parte recebe salário inferior a R$ 3 mil, segundo levantamento divulgado ontem (18), em São Paulo, pelo Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp). A pesquisa aponta ainda a desvalorização da licenciatura – enquanto 50% dos profissionais dos cursos de bacharelado recebem abaixo de R$ 3 mil, na licenciatura o percentual sobe para 88%.
Dos oriundos da rede pública, 21,8% ganham menos de R$ 1 mil, 54,4% têm salário entre R$ 1 mil e R$ 3 mil, 16,8% recebem entre R$ 3 mil e R$ 5 mil e 6,1% têm renda acima de 5 mil. Entre os egressos da rede pública, 23,1% ganham menos de R$ 1 mil, 48,1% estão com faixa salarial de R$ 1 mil a R$ 3 mil, 22,1% recebem de R$ 3 mil a R$ 5 mil e 6,8% têm salário acima de R$ 5 mil.
Para Rodrigo Capelato, diretor do Semesp, a diferença salarial entre aqueles que estudaram em rede pública e particular não é substancial entre recém-formados. Segundo ele, o grande desafio dos cursos de graduação é elevar a renda de quem já trabalha e estuda para melhorar de vida. “As pessoas estão se formando e os salários não estão subindo tanto assim”, explicou.
A maioria dos alunos ainda se matricula em carreiras clássicas do bacharelado, 40% optam por direito, administração, engenharias e ciências sociais. Na comparação entre os salários, os engenheiros têm os de melhor renda: 32,1% ganham entre R$ 3 mil e R$ 5 mil, sendo que 10% recebem de R$ 10 mil a R$ 15 mil. Entre os formados em administração, 15,99% encontram-se na faixa salarial entre R$ 3 mil e R$ 5 mil.

Empregabilidade
Segundo o levantamento, 47,09% trabalham na área de formação, 34,3% dos egressos não trabalham e 18,7% atuam em uma área diferente da sua formação. A pesquisa também indicou que 38% entre aqueles que responderam que não trabalham dedicam-se à pós-graduação. Já 12% estão fazendo outro curso de graduação e 48,3% não têm ocupação.
Egressos de entidades privadas e públicas concordam que as instituições de ensino precisam fazer mais parcerias com empresas, investir em aulas práticas e fomentar estágios. O levantamento ouviu 1.445 participantes de 135 cursos diferentes de todo o País, sendo 1.089 formados e 356 pessoas que abandonaram o curso ou ainda estudam. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos.

O crescimento da internet no País


Relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) coloca o Brasil na 4.ª posição em uma lista de países que considera o número de habitantes com acesso à internet.
De acordo com o documento, o País tinha, em números absolutos, 120 milhões de usuários de internet em 2015, atrás apenas da Índia (333 milhões), dos Estados Unidos (342 milhões) e da China (706 milhões).
O relatório da ONU revelou ainda que 70% dos usuários de internet estão nas chamadas nações em desenvolvimento, a maior parte deles concentrada, naturalmente, na China e na Índia, as duas nações mais populosas do mundo.
Era esperado que o crescimento do número de usuários de internet no quadriênio 2012-2015, corte adotado para o levantamento, fosse maior naquelas nações. Nos países economicamente mais avançados, o que se observa hoje é a estabilização do número de pessoas conectadas, visto que os investimentos em tecnologia e infraestrutura para universalizar o acesso à rede já haviam sido feitos no passado. Nos países ricos, priorizam-se agora a constante melhoria da qualidade do acesso por banda larga e a ampliação da gama de serviços que podem ser contratados no ambiente digital. Um passo adiante.
Já em economias em desenvolvimento, como a brasileira, o que se tem observado é o investimento na ampliação da infraestrutura de rede que permita que o acesso à internet chegue a um número cada vez maior de municípios.
O desafio das operadoras, com a necessária fiscalização da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), é fazer a universalização do acesso e a melhora da qualidade da conexão caminharem pari passu. Não obstante o aumento do número de usuários de internet no Brasil, o relatório da Unctad revela que não apenas o acesso à conexão por meio da banda larga ainda é restrito, como, para aqueles que já o possuem, a qualidade do serviço está aquém do desejável.
Não por acaso, a presença de países da América Latina, da África e do Caribe ainda é muito incipiente nos rankings de acompanhamento da evolução do comércio digital. Estas regiões respondem por menos de 2% das empresas digitais com capitalização de mercado.
O acesso à internet rápida e segura é condição indispensável para o desenvolvimento da chamada economia digital. Em países como o Brasil, no entanto, este tipo de acesso ainda é bastante restrito, seja por questões técnicas, seja por razões comerciais. Como também mostrou o relatório, o acesso à internet por banda larga é três vezes mais caro nos países em desenvolvimento.
No Brasil, 54% dos lares têm acesso regular à internet, de acordo com os dados da TIC Domicílios 2016, apurados pelo Comitê Gestor da Internet (CGI). Entretanto, observa-se uma clara estratificação dos níveis de qualidade de conexão à rede no País. Enquanto as classes A e B têm taxas de conexão comparáveis às de países desenvolvidos, como o Reino Unido, as classes C e D aproximam-se dos mesmos indicadores de qualidade da Bolívia e do Quênia, por exemplo.
Ainda em outubro, o governo deverá lançar um novo plano para investimentos na ampliação da oferta de banda larga no País. De acordo com André Borges, secretário nacional de Telecomunicações, a meta é aumentar o alcance da fibra ótica, que permite o acesso por banda larga, para 75% dos municípios brasileiros. Os 25% restantes deverão ser atendidos por sinal de rádio digital de alta capacidade.
Dentro de dias, o governo iniciará a consulta pública com as novas diretrizes que substituirão aquelas contidas no Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), do segundo mandato Lula, e do programa Brasil Inteligente, de maio do ano passado. Borges prevê que a meta do novo programa de banda larga seja atingida em até dez anos.
Cabe ao Estado criar as condições para investimento em tecnologia que permita o ingresso do País na economia digital como um player importante. Até lá, o número de usuários de internet será apenas isso, um número.

Juventude evadida


EDITORIAL

Adriano Vizoni - 27.ago.2015/Folhapress
MUNIZ FREIRE - ES - BRASIL, 27-08-2015, 16h20: GESTAO ESCOLAR. Escola Estadual de Ensino Medio Maria Candido Kneipp, escola publica na zona rural do interior do Espirito Santo que teve a melhor avaliacao segundo o ENEM. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress, ESPECIAIS) ***EXCLUSIVO FSP***
Sala de aula em escola no Espírito Santo
Com tudo o que já se diagnosticou e debateu sobre evasão escolar, o país ainda faz muito pouco para manter os seus jovens no ensino médio, nível mínimo de escolaridade para que obtenham formação, emprego e renda dignos. Basta contemplar os números de reportagem publicada na terça-feira (17)por esta Folha.
Dos 10,3 milhões de moças e rapazes brasileiros de 15 a 17 anos, 1,5 milhão nem mesmo se encontrava matriculado em 2015 (último dado disponível). Outro 1,9 milhão abandonou a escola ou foi reprovado (1,2 milhão), desperdiçando seus esforços e os dos professores, além dos R$ 7 bilhões investidos na manutenção dessas vagas.
Entre não matriculados e evadidos, o Brasil tem 22% de jovens nessa faixa etária ausentes dos bancos escolares. Mantido o ritmo de inclusão dos últimos anos, seriam necessários uns dois séculos para universalizar o acesso.
Apenas 58,5% dos jovens de 19 anos tinham concluído o ensino médio, como deveriam, em 2015. Houve algum progresso, verdade, pois em 2010 eram 51,6% os diplomados. Mas não o suficiente.
Pode-se até imaginar o pior. Após a crise econômica e em meio à lenta recuperação do emprego, não será surpresa se mais jovens deixarem os estudos para ingressar no mercado de trabalho, de modo a reforçar a renda familiar.
A reforma do ensino médio recentemente aprovada, que busca torná-lo mais flexível e aproximá-lo dos interesses dos adolescentes, vai na direção acertada. Entretanto seus efeitos vão demorar, e resta ainda complementá-la com a adoção da base curricular comum para esse estágio do ensino.
Além disso, o problema está longe de se limitar às aulas. São várias as causas da evasão: externas à escola (pobreza, violência, gravidez adolescente), internas (qualidade do ensino, ambiente escolar) e inerentes ao próprio jovem (baixas resiliência e motivação).
Para combater a evasão de modo menos lento, urge recorrer a um arsenal mais robusto. Há que pensar em medidas variadas e complementares, contemplando modalidades de transferência de renda e melhorias na infraestrutura da escola, do transporte escolar ao acompanhamento individual de alunos em dificuldade.
O Brasil precisa investir muito mais —tempo, atenção e recursos— na sua juventude. Em primeiro lugar, porque é uma obrigação para com a sociedade; depois, porque precisa de sua capacitação para dar o salto de produtividade sem o qual o desenvolvimento do país continuará marcando passo.

18 de outubro de 2017

Modelos ideais de educação mobilizaram brasileiros ao longo da história


  • 15/10/2017 08h13
  • Brasília
Priscila Ferreira - Repórter da Agência Brasil
A busca de modelos ideais de educação no mundo não é assunto recente. Ao longo da história, muitos estudiosos formularam teorias e implantaram ações para desenvolver as bases de uma educação democrática e de qualidade.
No Brasil, não foi diferente.
Para marcar a passagem do Dia do Professor, comemorado neste domingo (15), o professor Célio Cunha, do Departamento de Educação da Universidade de Brasília (UnB), conversou com o Portal EBC sobre 14 brasileiros que revolucionaram a educação no país. Para Célio Cunha, no Brasil, o maior desafio é dar continuidade às ideias destes mestres e abrir todas as ações ao diálogo com a sociedade. "É necessário fazer um pacto pela educação brasileira acima de qualquer interesse político e ideológico", afirma o professor.
Além dos 14 brasileiros citados, o professor diz que nomes como Noemy da Silveira Rudolfer, José Mário Pires Azanha, Luiz Antonio Cunha, Moacir Gadotti, Claudio Moura Castro e João Batista de Oliveira poderiam ser incluídos entre os que revolucionaram a educação no país.
Conheça os grandes ícones da educação no Brasil
Nísia Floresta
Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885) foi uma grande defensora da educação e dos direitos humanos. Ela entendia que a escola deve ser de todos, inclusive das mulheres. Foi, provavelmente, a primeira mulher no país a publicar textos em jornais, em uma época em que a imprensa nacional ainda engatinhava. Nísia também dirigiu um colégio para moças no Rio de Janeiro e escreveu livros em defesa dos direitos das mulheres, dos índios e dos escravos.
Rui Barbosa
Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923) foi responsável por um projeto de modernização da educação no Brasil, ao defender um sistema nacional de ensino baseado na universalização e gratuidade, do jardim de infância à universidade, conforme consta de pareceres por ele redigidos em 1882. Rui Barbosa havia estudado o contexto da educação nos Estados Unidos e em vários países da Europa para defender o que considerava adequado ao Brasil. Ele chegou à conclusão de que, se a educação no país continuasse como estava, o Brasil levaria 799 anos para atingir o estágio dos países que tinha pesquisado. As conclusões presentes nos pareceres incorporaram as ideias da Escola Nova. Para Célio Cunha, os pareceres de Rui Barbosa destacavam  a responsabilidade do Estado com a instrução pública. Barbosa defendeu também a ideia de um Ministério da Educação inspirado na realidade de vários países europeus.
Roquette-Pinto
Um dos maiores defensores da radiodifusão no Brasil, Edgard Roquette-Pinto (1884-1954) teve importante papel na difusão da educação e da cultura no país. Foi ele quem idealizou a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada com o objetivo de divulgar assuntos culturais e científicos e oferecer cursos em diveresas áreas. Para Roquette-Pinto, o rádio, assim como o cinema, teriam papel fundamental na solução dos problemas educacionais no país. Ele dirigiu o Instituto Nacional de Cinema Educativo de 1936 a 1947, incentivando a participação de cientistas na elaboração dos filmes e a escolha de temas científicos e técnicos.
Manoel Bomfim
Manoel José do Bomfim (1868-1932) foi defensor da educação científica nas escolas, com disciplinas como matemática, física e química, em um contexto em que a tradição do Brasil ainda era quase exclusivamente humanística, baseada na pedagogia dos jesuítas. Ao contrário da maioria de seus contemporâneos, Bomfim defendia a miscigenação, negando a validade científica das teorias racistas em voga. Via na educação a emancipação e a construção de uma sociedade democrática. O sentido libertário que ele atribuiu à educação é considerado um dos princípios básicos para a construção da cidadania.
Villa-Lobos
No período do governo Getúlio Vargas, Heitor Villa-Lobos (1887-1959) desenvolveu o Sistema de Educação Musical, com a adoção do canto orfeônico no ensino regular. Apesar de semelhante ao canto coral, o canto orfeônico ajustava-se à ideia de multidões, pois não era necessário que os praticantes tivessem conhecimento de técnica e teoria musical. Com o objetivo de capacitar professores de educação musical, foi criado, em 1942, o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico no Rio de Janeiro e, desde então, outros cursos foram implantados no Brasil. Villa-Lobos também dedicou atenção ao trabalho rítmico, associado à cantiga de roda e a canções folclóricas, colocando o aluno inicialmente em contato com os sons para, depois, familiarizá-lo com partituras.
Bertha Lutz
Bertha Maria Julia Lutz (1894-1976) lutou pelo acesso das mulheres à educação e levou escolas de ensino superior para as camponesas. Uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil, a bióloga fundou, em 1919, a Liga pela Emancipação Intelectual da Mulher que, em 1922, transformou-se na Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), a principal agremiação de mulheres até a década de 1970.  Berta Lutz defendeu, desde o início de sua militância, o direito da mulher ao voto, à educação e à profissionalização.
Fernando de Azevedo
Fernando de Azevedo (1894-1974) foi um dos expoentes do movimento da Escola Nova. Em 1934, ajudou a criar a Universidade de São Paulo (USP), uma das mais notáveis universidades brasileiras. Também foi criador, em 1930, do Instituto de Educação, que tinha como objetivo a formação de professores em nível superior. Porém, essa instituição durou apenas cinco anos. Azevedo foi redator do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932, considerado um dos mais importantes documentos para a educação brasileira. O manifesto defendia novos ideais na educação e estabelecia diretrizes para uma nova política no setor.
Anísio Teixeira
Apontado como principal idealizador das grandes mudanças da educação brasileira no século 20, Anísio Spínola Teixeira (1900-1971) foi pioneiro na defesa do ensino público para todos. Criou a rede municipal de ensino completa, da escola primária à universidade. Teixeira executou medidas para democratizar o ensino e defendeu a experiência do aluno como base do aprendizado. As novas responsabilidades da escola seriam educar, em vez de instruir, formar homens livres e preparar os alunos para um futuro incerto, em vez de transmitir ideias do passado.
Cecília Meireles
Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901-1964) trabalhou pela educação diferenciada para a infância e pela valorização da cultura popular e do folclore brasileiro. Foi professora da Escola Normal, lutou pela formação dos docentes e escreveu livros didáticos, em uma época em que tais publicações eram escassas do Brasil. Também foi uma das signatárias do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Cecília Meireles dedicou-se à tarefa de pensar questões fundamentais para os educadores, tendo como ponto de partida um trabalho de reflexão histórico sobre a escola e suas implicações na sociedade.
Paulo Freire
Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997) é o patrono da educação no Brasil. Defensor da  conscientização do aluno, Freire desenvolveu um método inovador de alfabetização para adultos, com foco na emancipação da pessoa. Com pensamento pedagógico assumidamente político, Freire propôs que o aprendizado incluísse, simultaneamente, determinados conhecimentos e seus significados político e social. Ele entendia que o objetivo maior da educação é conscientizar o aluno e que, no caso das camadas menos favorecidas da sociedade, isso significaria levá-las a entender sua situação de oprimidas e a agir pela própria libertação.
Darcy Ribeiro
Para Darcy Ribeiro (1922-1997), o Brasil tinha de acertar o passo com seu passado indígena, afrodescendente e europeu. Darcy Ribeiro defendeu a educação básica integral e acreditava que a miscigenação poderia transformar o Brasil em uma grande democracia étnica. Fundou, em 1960, a Universidade de Brasília (UnB) e idealizou a Universidade Estadual do Norte Fluminense. Foi ministro da Educação em 1961 e, ao longo de sua vida, trabalhou pela escola pública, pela educação dos indígenas e pela qualidade do ensino infantil. Foi ainda responsável pelo projeto de lei que deu origem à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB), Lei 9394/96, aprovado pelo Senado.
Florestan Fernandes
Florestan Fernandes (1920-1995) lutou pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, pela escola pública, pela valorização e qualificação do professor e pela presença do Estado na educação brasileira. Sociólogo, pesquisou a sociedade indígena dos Tupinambás, gerando um estudo clássico para a etnologia brasileira. Seu nome é diretamente associado à pesquisa sociológica no Brasil e na América Latina. Florestan Fernandes transformou o pensamento social no Brasil e estabeleceu um novo estilo de investigação sociológica, marcado pelo rigor analítico e crítico.
Mariazinha Fusari
Uma das criadoras da Educomunicação, Maria Felisminda de Rezende e Fusari (1940-1999) desenvolveu pesquisas sobre a relação entre mídia e infância. Foi co-fundadora do Núcleo de Comunicação e Educação (NCE), da Universidade de São Paulo (USP) e colaborou para a ampliação do diálogo entre os campos de conhecimento da comunicação e da educação.
Maria Teresa Mantoan
Defensora da educação inclusiva e do direito de todo cidadão ao ensino do nível básico ao superior, Maria Teresa Mantoan (1943) é crítica das chamadas escolas especiais. No entendimento de Maria Teresa, na escola inclusiva, alunos e professores aprendem a respeitar as diferenças, e este seria o primeiro passo para a construção de uma sociedade mais justa.
Edição: Nádia Franco

Atiramos para todos os lados e seguimos errando no ensino médio, Érica Fraga


érica fraga
É jornalista com mestrado em Economia Política Internacional no Reino Unido. Venceu os prêmios Esso, CNI e Citigroup. Mãe de três meninos, escreve sobre educação, às quartas.

Tuca Vieira - 11.dez.2002/Folhapress
ORG XMIT: 412001_0.tif SP 450 Anos: a adolescente Karina Lemos dos Santos, 16, que está grávida de sete meses. (São Paulo, SP, 11.12.2002. Foto de Tuca Vieira/Folhapress)
Adolescente grávida em São Paulo
Um estudo divulgado nesta semana atribui estatísticas sólidas a uma de nossas maiores catástrofes: o afastamento dos jovens da escola.
A pesquisa conduzida por Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, revela que o número de brasileiros de 15 a 17 anos —faixa etária compatível com o ensino médio— soma 10,3 milhões.
Desse total, 2,8 milhões perdem o rumo da escola por variados motivos.
Parte significativa (1,5 milhão) nem chega a se matricular no início do ano, outra parcela (700 mil) para de frequentar as aulas antes do fim do período letivo e outra fatia (600 mil) é reprovada por faltas.
O pesquisador não inclui na conta outros 600 mil que repetem por baixo desempenho, o que não necessariamente inclui desengajamento, embora ele possa ser a —ou uma— causa da dificuldade de aprendizagem.
O estudo —que, além de Insper e Instituto Ayrton Senna, teve apoio da Fundação Brava e do Instituto Unibanco— elenca as inúmeras possíveis causas do afastamento do jovem.
Muitas podem soar como obviedade, mas normalmente não povoam nossas análises sobre o tema, que tendem a focar excessivamente na falta de qualidade do ensino.
A dificuldade da escola em ser atrativa repele o adolescente. Essa é uma das pautas urgentes da educação brasileira.
Há outros motivos pessoais e sociais, porém, que se interpõem entre o jovem e a escola e também precisam ser considerados e atacados. A lista é longa e inclui gravidez precoce, violência, necessidade de trabalhar, distâncias longas a serem percorridas, baixa resiliência emocional.
São problemas muito mais próximos de famílias de baixa renda, que, ao afastar o adolescente da escola, contribuem para perpetuar sua situação de pobreza.
A pesquisa de Paes de Barros tenta dimensionar os variados custos do problema para os jovens em nível pessoal (como menor renda futura devido à baixa escolaridade) e para a sociedade.
A evasão e a repetência fazem com que os recursos usados para manter uma criança na escola precisem ser integralmente desembolsados novamente, não raro mais de duas vezes.
Há ainda os custos associados às consequências negativas da formação educacional precária, como a maior probabilidade de envolvimento com violência.
Falei um pouco neste espaço sobre essas questões, em novembro do ano passado, quando escrevi sobre os resultados então preliminares das investigações de Paes de Barros nesse sentido.
Mas outro aspecto muito interessante que a pesquisa recém-divulgada traz à tona é a mobilização que já existe para tentar combater esse problema.
Os autores do estudo fizeram um mapeamento detalhado de mais de cem iniciativas adotadas —entre diferentes Estados ou pelo governo federal— para atacar diversas causas do baixo engajamento juvenil com a escola no Brasil.
O fato de não estarmos de braços cruzados é um alento.
O difícil é entender por que, a despeito dos esforços, estamos estagnados em relação ao aumento das matrículas dos jovens nas escolas, o que tem feito com que 74% dos países avancem mais rapidamente do que o Brasil rumo à universalização nessa faixa etária.
Uma pista talvez passe por não termos ainda uma cultura consolidada de avaliar os resultados das políticas que elegemos e implementamos.
Sem uma maior clareza sobre a eficácia das diversas iniciativas que consumem recursos públicos e privados em prol da educação, será difícil identificarmos quais delas deveriam ser ampliadas, copiadas e aprimoradas.
Se parte dos recursos investidos no combate à evasão juvenil escolar estiver indo para o ralo empurrada por resultados nulos, a conta do desperdício só aumentará. 

17 de outubro de 2017

Um em cada quatro jovens vai abandonar o Ensino Médio até o final do ano

Jornal da Ciência –, 17/10/17

Isso corresponde a um universo de 2,8 milhões de pessoas (27%), entre os 10 milhões de jovens estimados no País nessa faixa etária e que deveriam, de acordo com a Constituição, estar frequentando a escola
A cada ano, quase três milhões de jovens abandonam a escola no Brasil. É o que apontou o estudo Políticas Públicas para Redução do Abandono e Evasão Escolar de Jovens, elaborado pelo Ensino Superior em Negócios, Direito e Engenharia (Insper) e divulgado hoje (17).
Ao final deste ano, um em cada quatro jovens entre 15 e 17 anos de idade vão abandonar seus estudos, não vão se matricular para o ano seguinte ou serão reprovados. Isso corresponde a um universo de 2,8 milhões de pessoas (27%), entre os 10 milhões de jovens estimados no País nessa faixa etária e que deveriam, de acordo com a Constituição, estar frequentando a escola.
Desse total de 10 milhões de jovens, cerca de 15% ou 1,5 milhão, sequer vão se matricular para o início do ano letivo. Do restante, entre aqueles que se matriculam, cerca de 7% ou 700 mil jovens vão abandonar a escola antes do final do ano. Além disso, cerca de 600 mil alunos (5%) serão reprovados por faltas, o que completa os 2,8 milhões de jovens que estarão fora da escola a cada ano.
Segundo o estudo, mais da metade desses jovens (59% do total ou cerca de 6,1 milhões) vai concluir o Ensino Médio com no máximo um ano de atraso. Além de todos os problemas que isso provocará para o futuro desse jovem e para o país, a evasão (ausência de matrícula no início do ano letivo) e o abandono escolar (desistência durante o ano escolar) dos jovens também implica em prejuízo econômico: cerca de R$ 35 bilhões por ano são desperdiçados no país por causa dessa realidade.
O estudo mostra ainda que houve uma estagnação na matrícula dos jovens entre 15 e 16 anos e que a porcentagem de jovens de 17 anos fora da escola cresceu 6 pontos percentuais nos últimos 15 anos, passando de 34% para 39,8%. Isso, segundo o estudo, contradiz uma tendência mundial: dados da Unesco apontam que 74% dos países avançam mais rapidamente na inclusão de jovens de 15 a 17 anos que o Brasil.
Os dados revelam que mais da metade das nações tem menor porcentagem de jovens fora da escola que o Brasil. Se manter este ritmo, o país levará 200 anos para atingir a meta estabelecida no Plano Nacional de Educação: universalizar o atendimento escolar para essa faixa etária – que, pelo plano, deveria ter sido concluída no ano passado.
Solução para o desengajamento
As principais razões para o chamado “desengajamento dos jovens”, segundo o estudo, estão associadas à pobreza e à dificuldade de acesso, tais como a falta de escolas na comunidade onde o jovem vive ou a falta de recursos para o transporte até a escola. Há também questões relacionadas à inadequação do currículo adotado, do clima escolar e da baixa qualidade dos serviços oferecidos pela escola.
Para reverter o quadro, o estudo propõe a criação de políticas públicas para diminuir o desengajamento como a garantia de acesso principalmente para aqueles que vivem em áreas rurais ou que têm alguma deficiência ou para jovens que cumprem pena privados de liberdade.
O estudo também propõe a criação de cursos profissionalizantes, um sistema de aconselhamento, práticas esportivas e artísticas, aumento das atividades à distância e flexibilização dos horários das aulas e do modelo de avaliação para ajudar a reduzir a evasão escolar.
O estudo Políticas Públicas para Redução do Abandono e Evasão Escolar de Jovens é organizado pela Fundação Brava, pelo Instituto Unibanco e pelo Instituto Ayrton Senna e está disponível no site Galeria de Estudos e Avaliação de Políticas Públicas, o Gesta.

Com evasão escolar empacada, país levaria 200 anos para incluir jovens





O Brasil não tem conseguido colocar todos os jovens na escola e, mantendo o ritmo de expansão da escolaridade dos últimos 15 anos, levaria 200 anos para universalizar o atendimento.
Dados de 2015, os mais recentes disponíveis, mostram que 22% dos jovens de 15 a 17 anos estão fora da escola. O índice é similar ao registrado em 2000, quando eram 25%, segundo estudo do economista Ricardo Paes de Barros.
Eduardo Anizelli/Folhapress
SAO PAULO, SP, BRASIL, 16-10-2017, 10h40: Retrato de Jonathan Ribeiro Moraes da Silva, 23, em sua casa em Guaianases, zona leste de Sao Paulo. Reportagem repercute o alto indice de jovens de 15 a 17 anos que ja precisaram largar a escola. Jonathan, que ao saber que a namorada estava gravida, precisou trabalhar e nao conseguiu conciliar as aulas. Aos 23 anos, ainda nao conseguiu voltar para concluir os estudos. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress, COTIDIANO) ***EXCLUSIVO***
Jonathan Ribeiro da Silva, 23, que largou a escola para trabalhar após a gravidez da namorada
Na comparação internacional, o Brasil vem perdendo posições. Enquanto na virada do milênio 43% dos países tinham resultados melhores que o Brasil, atualmente mais de 55% encontram-se nessa situação. Ou seja: têm um percentual menor de jovens fora da escola.
Essa faixa etária é a ideal para o ensino médio, etapa considerada um dos maiores gargalos da educação brasileira. Mas 56% dos jovens de 15 a 17 anos hoje na escola estão atrasados, ainda no ensino fundamental. Além disso, mais da metade dos que já abandonaram o fizeram antes de chegar ao ensino médio.
O estudo faz um balanço da realidade dos jovens que perdem o engajamento da escola e joga luz aos motivos, além de refletir sobre os custos para a sociedade.
De todos os 10,3 milhões de jovens brasileiros com idade entre 15 e 17 anos registrados em 2015, cerca de 1,5 milhão nem sequer se matricularam na escola no início do ano. Outros 1,9 milhão até se inscreveram, mas abandonaram a escola antes do fim do ano ou foram reprovados.
O volume de abandono e reprovação representa um custo estimado de R$ 7 bilhões por ano para o país. "Trata-se de um enorme desperdício de recursos, uma vez que esse gasto precisará ser realizado novamente no ano seguinte quando esses mesmos jovens, caso não evadam, retornarem à escola para cursar a mesma série", aponta o estudo, organizado pelo Insper, Fundação Brava, Instituto Ayrton Senna e Instituto Unibanco.
CUSTOS
Mas o custo maior será para aqueles que não terminam a escola, como pontua também o documento. A remuneração ao longo da vida de uma pessoa com ensino médio pode ser, por exemplo, entre 17% e 48% maior que a daquela com o mesmo perfil, mas com escolaridade até o ensino fundamental. Outros índices de qualidade de vida, como saúde e planejamento familiar, também são desfavoráveis, segundo Paes de Barros.
A equipe do pesquisador elencou os principais fatores determinantes para o abandono da escola, divididos em três dimensões: externas à escola (como pobreza, violência, gravidez), internas à escola (qualidade no ensino, clima escolar) e relacionada aos próprios jovens (baixa resiliência).
Ainda elencou ações educacionais já existentes nos colégios –iniciativas das redes ou de organizações não governamentais– e que atuam para cada tipo de desafio. "Cada jovem abandona por um motivo e é necessário um conjunto de ações para combater a evasão e acolher o jovem", afirma Paes de Barros, que é economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper.
Segundo o estudo, a sociedade deveria estar disposta a gastar o dobro do que atualmente investe por aluno do ensino médio –hoje na casa de R$ 4.000 por ano por aluno. Considerando o total de alunos afetados, a pesquisa calcula que o país precisaria de mais R$ 98 bilhões. Hoje, investe-se no ensino médio cerca de R$ 65 bilhões ao ano.
Mirela Carvalho, gerente de Gestão de Conhecimento do Instituto Unibanco, lembra que intervenções focadas precisam ser articuladas com os entraves sistêmicos. "Carregamos uma série de desafios que chegam no ensino médio, como problemas de disponibilidade de escola, carência de professores, absenteísmo e infraestrutura."
A obrigatoriedade de matrículas dessa faixa etária foi incluída na Constituição somente em 2009, quando se estipulou o prazo final para 2016. Esse limite foi reafirmado na lei do PNE (Plano Nacional de Educação), de 2014, mas não foi atingido.
Para o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, a orientação recente da política educacional brasileira, com a centralidade do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), criado em 2007, esvaziou a pressão dos gestores para universalização da educação.
"Quem está fora da escola são as pessoas com maior vulnerabilidade, que não têm voz no debate público", diz. "E os gestores públicos não têm como princípio a universalização de matrículas porque, se ele buscar incluir, os índices vão cair", completa, relacionando os índices educacionais ao nível socioeconômico dos alunos.
A recente reforma do ensino médio anunciada pelo governo Michel Temer não é citada no leque de ações possíveis. Entretanto, a flexibilidade curricular –ampliada com a mudança–é apontada como estratégia para melhorar o engajamento dos alunos. "Ela pode dar significado à escola, mas depende de como será implementada", afirma Paes de Barros.
TRABALHO É PRINCIPAL CAUSA
Jonathan Ribeiro da Silva já tinha 18 anos e estava no 2º ano do ensino médio quando descobriu que a namorada estava grávida. Quatro meses depois, com a expectativa de precisar sustentar uma criança, trocou a sala de aula por um trabalho como metalúrgico. A mãe de seu filho, de quem ele já é separado, também parou de estudar.
O trabalho tomava toda a tarde e a noite. O jovem estudava à noite e, na escola estadual onde estava, em Guaianases, zona leste, não teve oportunidade na época para se transferir para a manhã. "Eu gostava da escola, sinto saudades, era um momento de aprendizagem e poderia ter mais oportunidade e um emprego melhor", diz.
Hoje, aos 23 anos, Jonathan trabalha como gari e ainda não conseguiu retornar à escola. "Não consigo conciliar, é muito cansaço", afirma. "Mas ainda vou voltar", completa ele, que diz incentivar o filho, hoje de 4 anos, a estudar. "Ele adora."
Quase 60% dos jovens veem a necessidade de trabalhar como a causa principal para terem abandonado a escola, segundo pesquisas citadas no estudo de Paes de Barros. "O conflito entre escola e trabalho, em particular no ensino médio, cresce de forma acentuada com a idade", afirma o levantamento.
A necessidade de fazer renda também afastou da escola Vinicius Vieira Soares da Silva em 2015. Precisava ajudar a mãe com as contas de casa e, no 3º ano do ensino médio, deixou de estudar.
"Comecei a trabalhar e chegava tarde. Como a entrada na escola era às 19h, não dava", diz, hoje aos 18 anos. Silva foi trabalhar numa fábrica de camas e hoje trabalha em instalação de box de banheiro. "Espero poder voltar a estudar". 



TERÇA, 17/10/2017, 00:01,CBN

Quase três milhões de jovens decidem abandonar a escola anualmente no Brasil

Um levantamento do Instituto Ayrton Senna, do Insper, da Fundação Bravo e do Instituto Unibanco revela que a saída desses alunos gera um prejuízo de R$ 35 bilhões ao país. Os principais motivos para a evasão escolar são a qualidade de ensino, o clima do ambiente escolar e a baixa resiliência emocional.

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Alunos de Nova Iguaçu (RJ) assistem a aula de matemática. (Crédito: Ministério do Desenvolvimento/Flickr)
Alunos de Nova Iguaçu (RJ) assistem a aula de matemática.
Crédito: Ministério do Desenvolvimento/Flickr
Por Juliana Prado
Ao menos 27% dos jovens - ou 2,8 milhões de alunos - com idades entre 15 a 17 anos, não vão se matricular no início do ano letivo de 2018 ou porque abandonaram os estudos ou porque foram excluídos da escola pela reprovação.
Dados divulgados pelo Instituto Ayrton Senna e pela instituição de ensino,o Insper, mostram que apenas pouco mais da metade dos jovens de 15 a 17 anos concluirá o Ensino Médio com no máximo um ano de atraso. O resultado disso é o desperdício de R$ 35 bilhões por ano aos cofres públicos.
O custo de cada aluno para os três anos de Ensino Médio é de cerca de R$ 12 mil. Mas, ao abandonar a escola, o valor do custo sobe, já que, segundo o estudo, o aluno está mais suscetível a problemas com violência e saúde quando está fora da escola.
Para Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor no Insper, que conduziu a pesquisa, há um prejuízo para o país quando um aluno deixa a escola.
'Qualquer medida de evasão está muito acima do que se gasta com o Ensino Médio. O custo de não combater a evasão é muito maior do que o de combatê-la', explica Ricardo.
O estudo também identifica e classifica as 14 principais razões para o desengajamento dos estudantes. Entre os fatores estão: impedimentos externos, como acesso limitado ou impossibilidade física, falta de interesse, qualidade do ensino, clima do ambiente escolar e quando a decisão de sair da escola é tomada sem a devida reflexão.
Para a pesquisadora de Educação e comentarista da CBN Ilona Becskeházy, a qualidade do ensino é fundamental para manter o estudante na escola:
'À medida em que o aluno vai crescendo, ele começa a perceber que não está aprendendo e aumenta a concorrência com outras coisas que ele faz fora da escola. Elas podem tirar a atenção se a escola não mostrar qualidade. Todo os dias, as escolas devem ter alguma coisa interessante acontecendo e um engajamento sério e aprofundado no aprendizado. Para isso, o currículo é muito importante', afirma Ilona.
A pesquisa conclui que no atual ritmo de evolução da taxa de inclusão de jovens no Ensino Médio, o Brasil levará 200 anos para atingir a meta do Plano Nacional de Educação, que é a universalização do atendimento escolar a toda a população de 15 a 17 anos. Mas, se o ritmo for semelhante ao dos países da Ásia Ocidental - os que avançaram mais rapidamente neste quesito - isso poderia ocorrer em 2030, com quase 14 anos de atraso em relação à meta prevista no Plano Nacional de Educação.