13 de dezembro de 2017

Drogas, evasão e falta de luz e água são marcas da pior escola do Enem em SP


"É zoado." É assim que um professor resume a escola Adelaide Rosa Fernandes Machado de Souza, que teve o pior desempenho no ano passado entre as estaduais da capital paulista no Enem.
Ali, no distrito do Grajaú, na zona sul de São Paulo, onde 47% da população só estudou até o ensino fundamental, segundo a última pesquisa DNA Paulistano, é comum o uso de drogas entre os alunos e o índice de evasão é alto, dizem os professores.
"Aqui a gente trabalha mais como um administrador de conflitos. O problema social é maior que qualquer coisa", resume um professor que prefere não se identificar. "Você trabalha mais como pai que como professor", diz.
"Eu dou mais conselho que aula", concorda outro.
Confira a posição de sua escola
Onde fica EnemEscola Estadual Adelaide Rosa F. M. de Souza - Parque Brasil
Leva-se quase duas horas para percorrer, de ônibus, os 29 km que separam a escola do centro da cidade –há ruas de chão batido no entorno.
Falta "de tudo", resumem professores e alunos. Um professor de história relata que ganha R$ 1.900 por mês e precisou gastar R$ 1.200 em uma impressora porque a escola não conseguia dar o mínimo, e diz que precisa levar papel higiênico de casa –o que é confirmado por um aluno.
"Tem estudantes bons, que você fica em cima e que conseguem entregar um resultado. E tem alunos que o seu papel como professor é tentar tirar do crime. Tem estudante que já me confessou que ganha R$ 1.300 por semana vendendo droga. E aí?", conta um dos professores.
Em novembro, um furto de fios e cabos deixou a escola sem energia elétrica por 15 dias e sem água por dois.
O entorno também é problemático. A loja de doces do comerciante Lauro Bel Rovere, 47, a um quarteirão da escola, fecha nos horários de menor movimento.
"Seguro, seguro, eu não me sinto. Aqui já foi bom, mas fica cada vez mais difícil. Já roubaram até a igreja", conta o comerciante, que trabalha ali há 12 anos.
"Não tem lazer, não tem diversão por aqui. O que o aluno faz? Vai para a droga", afirma um professor.
Presidente do grêmio estudantil, Felipe Santana, 17, diz que também "falta muito interesse por parte dos alunos". "Esse ano, uma professora organizou uma excursão para o Theatro Municipal. Quase todo mundo desistiu de ir", diz ele, que acaba de se formar no ensino médio e, com a nota do Enem deste ano, quer cursar publicidade numa universidade privada.
Só 6% dos alunos do 9º ano têm aprendizado considerado adequado em português e matemática, segundo a Prova Brasil 2015. A nota do Ideb de 2015 foi de 2,9 (numa escala que vai de 0 a 10).
O diretor da escola, Antônio Teixeira Neto, reconhece que faltava tinta para impressão, mas desde que assumiu a direção, em junho, diz ter resolvidos as pendências e que não falta papel higiênico.
A escola passará a ser integral a partir do ano que vem, o que deve melhorar os índices, diz. "Nós temos melhorado. No Idesp do ano passado, a escola avançou. Estamos mudando a equipe, estamos comprometidos a melhorar", afirma o diretor.
*

E.E. Adelaide Rosa F. Machado de Souza

Médias no Enem 2016

Provas objetivas: 470,32
Redação: 469,15

Posição nos rankings*

Entre públicas e privadas no Brasil: 6.900º
Entre estaduais de SP na capital: 3.419º

Outro índice

Idesp no ensino médio: 1,5 (média de SP é 2,3)
*Entre escolas que têm ao menos 61 alunos no 3º ano do ensino médio

Escola líder do Enem em São Paulo tem verba de banco e professor extra



escola estadual da capital paulista com melhor nota no Enem 2016 fica em uma área nobre da cidade. As salas de aula dão para uma praça arborizada e ficam a oito minutos de distância a pé da estação Sumaré do metrô, na zona oeste. No entorno, seguranças particulares circulam pelas ruas onde só há casas de alto padrão.
O colégio Professor Antônio Alves Cruz acumulou as melhores notas no exame nacional do ano passado entre todos os estabelecimentos da rede estadual na cidade.
De acordo com a coordenadora Márcia Benedicto, o bom desempenho tem sido constante desde 2012, quando passou a receber os alunos em período integral. "Eles ficam aqui das 7h às 16h e estão sempre em atividade."
A boa fama da escola, que chega a atrair filas no período de matrículas para as concorridas 400 vagas, tem atraído até alunos que moram em regiões longíquas.
Mas nem sempre foi assim. Em 2000, a escola quase fechou as portas por causa das más condições de ensino que levaram a uma debandada de professores. A ameaça mobilizou ex-alunos que se juntaram para reerguer o local.
Confira a posição de sua escola
REFORÇO
Onde fica EnemEscola Estadual Professor Antônio Alves Cruz - Pinheiros
Como parte do programa de ensino integral, os alunos alternam as aulas de conteúdo obrigatório com as chamadas disciplinas diversificadas, que incluem preparação para o mercado de trabalho e orientações de estudos, um reforço para quem tem dificuldade em alguma matéria.
O clima bucólico do entorno é reproduzido dentro da escola, que tem uma praça onde os alunos se reúnem toda semana para saraus de poesia. Os bancos em meio às árvores foram construídos graças à parceria da escola com um programa educacional patrocinado por uma instituição financeira.
Durante cinco anos, até 2016, o projeto manteve professores extras nos horários entre as aulas para ajudar a fixar o conteúdo e reformou os banheiros e as salas.
"Os professores tinham experiência em cursinhos e ajudavam bastante os alunos por terem um modo de falar mais descolado", lembra Márcia.
Além disso, o corpo docente fixo recebe 75% a mais do que os demais da rede estadual como contrapartida pela exclusividade. Por ministrarem aulas em uma escola de tempo integral, os professores não podem trabalhar em outros lugares, o que acaba sendo comum no regime normal. Isso ajuda também a reduzir as faltas de aulas por ausência de professores.
Outro ponto que conta a favor da escola é a sua localização, de fácil acesso, próxima a uma estação de metrô e de linhas de ônibus.
"Por trabalharem em regiões próximas, como no centro e na avenida Paulista, os pais conseguem trazer os filhos de manhã cedo", diz a coordenadora, que afirma ter tido abandono de estudos zero na escola nos últimos anos.
*

E.E. Professor Antônio Alves Cruz

Médias no Enem 2016

Provas objetivas: 532,05
Redação: 548,27

Posição nos rankings*

Entre públicas e privadas no Brasil: 1.374º
Entre estaduais de SP na capital: 1º

Outro índice

Idesp no ensino médio: 4,1 (média de SP é 2,3)
* Entre escolas que têm ao menos 61 alunos no 3º ano do ensino médio
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Sob Alckmin, SP tem 30% das escolas abaixo da média nacional no Enem




Três em cada dez escolas ligadas à Secretaria de Educação do governo Geraldo Alckmin (PSDB) não conseguiram superar a média nacional da redes estaduais do país na edição de 2016 do Enem. A rede escolar do Estado mais rico do país é superada por outros cinco Estados.
O governo federal deixou de apresentar os resultados do exame por escola neste ano. A Folha então acessou os dados divulgados pelo MEC (Ministério da Educação) e tabulou os resultados.
A reportagem excluiu escolas com menos de dez alunos do 3º ano no exame e/ou com menos de 50% do total de alunos na prova, seguindo critério do MEC de anos anteriores.
O método já revela a dificuldade da rede paulista em estimular seus alunos a fazer o Enem, o que já ocorria nos rankings de anos anteriores. Alckmin é pré-candidato à Presidência da República.
Das 3.600 escolas de ensino médio do Estado, 60% não tiveram ao menos metade dos alunos no exame. Assim, não tiveram médias calculadas.
Confira a posição de sua escola
O Enem é a porta de entrada de quase todas universidades federais e de algumas estaduais, como a USP.
A média de cada escola foi calculada a partir da nota dos alunos nas áreas da prova objetiva (linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas). Escolas técnicas do Centro Paula Souza foram suprimidas. As unidades têm prova de admissão.
Das 1.399 estaduais com notas, 423 ficam com média abaixo de 488,23. Essa é a média das redes estaduais do país.
A média geral da rede foi de 525,7. É superada pelas redes do Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais.
Um grupo de 139 escolas paulistas, que representa as 10% mais bem posicionadas, puxa a média da rede para cima. As notas variam, nesse conjunto, de 514,42 a 545,31.
A escola Prof. Maria Dolores V. Madureira, em São José dos Campos (a 94 km da capital), teve o melhor desempenho no Estado (545,31).
Entre as escolas do topo, 49% são de nível socioeconômico "alto". Essa classificação do MEC, adotada nas últimas divulgações do Enem, contém sete patamares, de "muito baixo" a "muito alto".
No outro extremo, nas 10% de pior desempenho, as médias variam de 443,60 a 478,32. Os níveis socioeconômicos de 39% dessas escolas estão entre "médio" e "médio alto".
ENEM EM SÃO PAULOUma em cada três escolas de Alckmin está abaixo da média nacional das estaduais
PERFIL
O retrato de SP é mais privilegiado ao se comparar com a média do país. Na rede paulista, 22% das escolas são de nível socioeconômico "alto".
Somente 10% de todas as unidades estaduais do país têm alunos com esse perfil. Pesquisas evidenciam correlação entre nível socioeconômico e desempenho escolar.
Para João Cardoso Palma Filho, professor da Unesp e ex-secretário-adjunto de Educação de SP, a falta de recursos para a educação acentua dificuldades que impedem melhorias. Segundo ele, o problema começa com a falta de políticas no fundamental.
"O estudante já chega no médio com defasagem. Se olhar a infraestrutura das escolas, é lamentável. Ainda falta professor para disciplinas como física e química".
Palma Filho ainda discorda da política de escolas de tempo integral do Estado, com número reduzido de alunos. "O Estado não tem folego financeiro para expandir isso de forma significativa."
Ana Paula Corti, professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, também questiona essa postura. "Cria ilhas de excelência e aprofunda as desigualdades nas outras escolas."
REDES ESTADUAIS NO ENEMSP está atrás de outros 5 Estados nas provas objetivas
OUTRO LADO
A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, do governo Geraldo Alckmin (PSDB), afirmou em nota que os dados do Enem não são adequados para analisar o desempenho das redes de ensino, porque "tem participação voluntária". O governo afirma que a rede mantém ensino universalizado, sem seleção de estudantes.
"Como o governo federal e especialistas em educação constantemente alertam, a avaliação correta para verificar o desempenho de redes de ensino no Brasil é o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica)", afirma a nota da gestão tucana.
O MEC (Ministério da Educação) deixou de calcular as médias do Enem por escola neste ano sob o argumento de que os resultados não são a melhor alternativa para avaliar redes. Essa posição não é consenso entre pesquisadores. A Folha tabulou os dados de desempenho a partir dos dados oficiais do MEC.
Até agora, não há dados do Ideb por escola no ensino médio, como ocorre por exemplo no ensino fundamental. O índice da etapa é calculado a partir de amostra de escolas, só havendo uma nota por rede e no total do país.
O MEC promete produzir e divulgar na próxima edição do Ideb dados por escolas do ensino médio.
Na nota da Secretaria de Educação, o governo defende que São Paulo é o "primeiro lugar do Brasil nos três ciclos de ensino no Ideb".
"No ensino médio, ciclo que reúne a maior quantidade de alunos da rede estadual e os maiores desafios dos educadores de todo o mundo, o Estado lidera apresentando crescimento na média. Os estudantes saíram de 3,7 para 3,9 entre as duas últimas aferições", diz a nota.
Apesar de ter crescido 0,2 pontos no Ideb, entre 2013 e 2015, a rede estadual de São Paulo ficou abaixo da meta do índice no ensino médio (que era de 4,2). Também nos anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º anos) houve crescimento do Ideb, mas da mesma forma a rede está abaixo da meta.
"As ações da secretaria não priorizam o desempenho única e exclusivamente em qualquer tipo de avaliação, mas há um constante estímulo pela melhoria da aprendizagem, no projeto de vida dos jovens e pela continuidade dos estudos ou no mercado de trabalho", diz a nota.

Usar o no el celular en el aula: Francia lo prohibió y en Argentina se incentiva

¿Distracción o herramienta pedagógica?


El ministro de Educación francés comunicó que los teléfonos estarán 
guardados.
Usar o no el celular en el aula: Francia lo prohibió y en Argentina se incentiva
Chicos que usan el celular en una escuela de Mendoza.

El Gobierno de Francia decidió prohibir el uso de celulares en el aula. La restricción, 
que incluye su empleo en recreos y otros momentos libres, empezará a aplicarse el año 
que viene en los colegios e institutos de ese país. El anuncio lo realizó ayer el ministro 
de Educación francés, Jean-Michel Blanquer. En Argentina, la situación la regula cada 
jurisdicción. En 2016, en la Provincia de Buenos Aires se derogó la resolución 1728, que limitaba desde 2006 el uso de equipos móviles y dispositivos tecnológicos en horario escolar. Otros distritos no tienen 
normas, aunque no lo prohíben.
”Estamos trabajando en este tema y puede tomar diferentes formas. Alguien puede 
necesitar los móviles para fines pedagógicos o para situaciones de emergencia. Por eso, 
los teléfonos estarán guardados”, explicó Blanquer sobre la implementación de la nueva
 medida en Francia.


Sobre las razones de la prohibición, el ministro aseguró que el empleo de las pantallas
ya es una cuestión de “salud pública”. “Es bueno que los niños no pasen demasiado
 tiempo delante de ellas, sobre todo antes de los siete años”, remarcó Blanquer.
Según detalla el diario La Vanguardia, a la limitación durante las clases, que ya figura 
en el código de educación de Francia, ahora se sumará la prohibición durante los 
recreos y al mediodía, en el horario de almuerzo. La comunidad educativa considera 
que la modificación se tornará bastante difícil. En especial porque los padres 
aprovechaban el tiempo libre de los chicos para comunicarse con ellos por teléfono.

"El celular debe entrar al aula sólo si desafía a los chicos para aprender"

“Hoy el celular es el dispositivo que los niños utilizan para conectarse a Internet. Es 
una herramienta útil siempre que se la use correctamente”, asegura en diálogo con 
Clarín Marcela Czarny, directora de la Asociación Civil Chicos.net, quien destaca que, 
en esta línea, se levantó el año pasado la restricción que existía para en las escuelas 
bonaerenses.
Czarny sostiene que deben existir pautas claras en los colegios, consensuadas con los 
docentes. “Como parte de la alfabetización digital hay que enseñarle a los chicos a 
apagar los teléfonos. Hay momentos en los que se los puede sumar al aprendizaje y 
otros en los que no”, dice Czarny. “Sirven, como una computadora, para buscar 
información y comunicarse a través de las redes sociales. A su vez, existen aplicaciones 
educativas valiosas: de matemática, literatura o geografía”, agrega la referente.
Para ella, la decisión de Francia es exagerada. “Es cierto que la mala utilización de los 
equipos en el colegio complica y que hay docentes que se quejan de que sus alumnos 
no están concentrados durante las clases por, por ejemplo, utilizar Facebook en el aula. 
Considero que la solución no es sacar el teléfono de la escuela, sino incluir la tecnología con ciertos límites”, resume Czarny.
 



12 de dezembro de 2017

Apartheid social está por trás da violência no Brasil, diz pesquisador


RIO - O professor, sociólogo e pesquisador Julio Jacobo, coordenador da área de Estudos da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) diz que o Brasil tem uma segregação racial "exatamente igual" à África do Sul no período do Apartheid e que essa divisão é o pano de fundo para as mais de 786 mil mortes no país num período de 15 anos. Especial publicado pelo GLOBO mostrou que, entre janeiro de 2001 e dezembro de 2015, o Brasil teve mais homicídios que as guerras de Síria e do Iraque.
Jacobo afirma ainda que o sistema carcerário e as forças de segurança também contribuem para a média de uma morte a cada 10 minutos, como revelou o levantamento. E diz que a revogação do estatuto do desarmamento seria como institucionalizar a "teoria do faroeste": "cada um por si, todos contra todos". Confira abaixo a entrevista que o especialista concedeu ao GLOBO.
Em 15 anos, houve uma média de um homicídio a cada 10 minutos. No total, foram 786 mil mortes — mais que na Guerra da Síria e do Iraque. Como chegamos a esse ponto?
Por falta de planejamento e falta de vontade. É claro que a vontade política está para o outro lado, ou seja, para o lado de incentivar as contradições e conflitos. Tem uma questão que está no fundo de tudo isso: o Brasil é um país que tem uma enorme segregação. É um dos países do mundo que mais segrega. Falava-se que a África do Sul, em seu pior período, no Apartheid, segregava a população negra. No Brasil, acontece exatamente o mesmo.
Esse Apartheid social se reflete, neste momento, em uma guerra. Está na guerra às drogas, aos pobres, aos negros... Há uma série de guerras em andamento que contradizem um pouco a imagem do brasileiro. A imagem do brasileiro é o cara bonzinho, cantando em prosa e verso, "meu Brasil brasileiro"... Em prosa e verso, o Brasil real imagina um país sem conflitos raciais, sem segregação. Um país de gente boa. Mas não é assim. Em poucas partes do mundo se mata tanto. Nem na guerra da Síria.
Publico o Mapa da Violência há 20 anos. (A violência está) longe de melhorar. (Ela) piorou ao longo do tempo. O medo aumentou. Esse conflito não declarado mata muita gente. Entre 2007 e 2011, o número de mortos por homicídio no Brasil se equiparou a todos os conflitos armados no mundo, que foram pouco mais de 40. Entre eles, o conflito da Síria. Isso em um país que não tem conflito de fronteiras com ninguém. Não tem nenhum conflito aberto, não tem guerra racial (oficial). Enfim, não tem guerras declaradas. Mas tem uma guerra cotidiana que mata muito mais gente que todas as guerras declaradas do mundo.
Quais as possíveis soluções para o combate à violência?
Exigir políticas públicas de superação dos conflitos. Dê uma olhada: a polícia, o aparelho do estado que deveria tender a solucionar o problema, longe disso, incentiva o conflito. É uma polícia que mata e morre; é um Exército que, quando intervém, intervém contra a população. Todo o aparelho institucional, que deveria ser solução do conflito, incentiva. Nosso sistema carcerário incentiva o conflito; nosso sistema de segurança pública incentiva o conflito; nossa polícia, com elevada mortalidade, incentiva o conflito. As instituições que deveriam zelar pela paz do cidadão são instituições que incentivam a guerra cidadã.
O levantamento mostra que 70% das mortes acontecem por armas de fogo. Os números poderiam ser ainda maiores se não fosse pelo estatuto do desarmamento?
Exatamente. A partir de 2003, quando é implementado o estatuto, há uma regressão (do número de homicídios por arma de fogo), quando realmente há o controle das armas de fogo. Em 2007 e 2008, mais ou menos, (a taxa de homicídios) deixa de cair. E a partir de 2009 e 2010 voltam a subir com mais intensidade. Em 2011 e 2012, a taxa volta aos níveis anteriores.
O que explica isso?
Praticamente não há desarmamento da população neste momento. Não há entrega de armas, não há campanhas, etc. Deveríamos incentivar tudo aquilo que possa fomentar a resolução de conflitos. Mas não estamos fazendo isso ainda.
Temos iniciativas no Congresso que buscam a revogação dos estatuto...
Há vários deputados que estão sempre ameaçando submeter a revogação do estatuto do desarmamento à votação. A tese é de que o cidadão armado pode se defender, como não tem ninguém neste momento que o defenda dos bandidos armados. É a teoria do faroeste.
Seria um retrocesso a revogação do estatuto?
Na verdade, não (chegaria nem a ser) um retrocesso. Seria uma nova realidade. Uma nova realidade armada. O cidadão se armaria para proteger sua família, sua casa, seus filhos. Então, seria cada um por si e todo mundo contra todo mundo. Uma realidade muito pior. Por incrível que pareça.
A bancada a favor da revisão do estatuto do desarmamento afirma que o número de homicídios é crescente, mesmo com o estatuto aprovado. Como rebater esse argumento?
Basicamente, mostrando que o estatuto do desarmamento, praticamente, não existe mais por influência da própria bancada. No primeiro ano, foram retiradas de circulação aproximadamente 500 mil a 600 mil armas de fogo em um ano, um ano e pouco. A partir daí, praticamente acabou o estatuto. Não se vê postos de retirada. Ninguém neste momento devolve arma de fogo.
Quais as alternativas que o Brasil tem para enfrentar as mortes violentas?
Retirar armas de circulação, desarmar a cidadania. Criar uma nova consciência na juventude, que, neste momento, é quem mais mata e mais morre com armas de fogo. Criar uma nova consciência, uma nova ideologia de pacificação social — algo que se conseguiu naquela época (2003). Por que não se consegue hoje? Porque tem muitos interesses em jogo; muito dinheiro em jogo. A indústria de armas de fogo do Brasil é uma das mais poderosas do mundo. É uma indústria muito poderosa, que continua financiando deputados, senadores...
O Brasil tem Ministério dos Direitos Humanos. Esse peso institucional tem efeito prático na defesa dos direitos humanos no país?
Eu penso que é melhor que tenha do que não tenha. Mas não tem muita incidência. No entanto, há um crescimento da consciência brasileira sobre os direitos humanos. Avançou-se muito nos últimos 15 a 20 anos nesse sentido.
Apesar disso, as pessoas têm dificuldades de entender que direitos humanos são para todos.
Exatamente. A cidadania brasileira, a República brasileira, é uma das mais recentes na América Latina. Foi um dos últimos que se declarou republicano. É um lapso histórico. Algumas coisas são mais novas que em outros países. Não comparemos com Europa, mas comparemos com outros países da América Latina. Nosso problema democrático, nosso entendimento de democracia, é muito recente.
Existe relação direta entre o fim recente da ditadura e a abolição tardia da escravidão com o entendimento da população sobre os direitos humanos?
Exatamente. Questões da cidadania, direitos humanos. É uma sociedade que não pratica muito os direitos humanos. Foi um dos últimos do mundo a abolir a escravatura. Nossa consciência cidadã é uma questão muito recente. E o respeito ao próximo também é uma questão muito recente.

A cada dia, 30 crianças e adolescentes são assassinados no Brasil


 


SÃO PAULO - Todos os dias, 30 crianças e adolescentes são assassinados no Brasil. Em 2015, foram registrados 10,9 mil homicídios com menores de 19 anos, segundo dados do departamento de informática do Sistema Único de Saúde (Datasus). Essa população corresponde a praticamente um quinto de todas as vítimas de homicídio no país.
As conclusões fazem parte do relatório "A Criança e o Adolescente nos ODS", divulgado nesta terça-feira pela Fundação Abrinq. A pesquisa analisa o cumprimento dos objetivos de desenvolvimento sustentável propostos pela ONU para os 193 países signatários, como o Brasil, até 2030. O objetivo 16 trata de "paz, justiça e instituições eficazes".
Usando como base dados públicos, o relatório da Fundação Abrinq aponta que o número de crianças e adolescentes assassinados mais do que dobrou em 15 anos. Se em 1990 haviam sido registrados cerca de 5 mil mortes violentas de menores de 19 anos, em 2015 foram quase 11 mil.
Com uma taxa de 4,3 homicídios por 100 mil habitantes, o Brasil é o terceiro país mais violento para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos em uma lista de 85 nações. Em números absolutos, o Brasil é o segundo país com maior quantidade de crianças e adolescentes assassinados, ficando atrás apenas da Nigéria.
"As vítimas têm cor, classe social e endereço. São em sua maioria meninos negros, pobres, que vivem nas periferias e áreas metropolitanas das grandes cidades", afirma o relatório da Fundação Abrinq. O texto cita outro estudo, "Homicídios na Adolescência no Brasil: 2014", para afirmar que o risco de um adolescente negro morrer por homicídio é quase três vezes superior ao dos adolescentes brancos.
Comparando-se apenas números absolutos, Bahia é o estado com o maior número de vítimas de assassinato menores de 19 anos: 1.233. Na sequência, estão Rio de Janeiro (1.002), Ceará (900), São Paulo (839) e Minas Gerais (861).
O estudo da Fundação Abrinq chama a atenção para os riscos de crianças e adolescentes que vivem imersos em um contexto social de conflito, em que "a violência prepondera como modus operandi", diz o texto.
"Desde a violência doméstica a conflitos armados podem marcar o processo de desenvolvimento comportamental, emocional e psicológico de crianças e adolescentes. As consequências ainda podem marcar de maneiras nefastas e distintas a trajetória individual de meninos e meninas, que podem culminar no envolvimento desses com o 'mundo do crime' ou desencadear uma série de episódios de ansiedade, depressão, agressividade ou até severos traumas psicológicos nesses indivíduos quando adultos", afirma o relatório.

Escolas separam melhores alunos e 'criam resultados' no Enem


Marcel Rizzo/Folhapress
Fachada de unidade do colegio Farias Brito, em Fortaleza, um dos melhores no Enem Crédito: Marcel Rizzo/Folhapress DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM
Fachada de unidade do colégio Farias Brito, em Fortaleza, um dos melhores no Enem
Motivo de críticas em divulgações anteriores dos dados do Enem por escola, unidades com poucos alunos no 3º ano, e cujas aulas ocorrem dentro de unidades maiores, registram as maiores médias também no exame de 2016.
Os resultados segregados deste ano foram levantados pela Folha partir da tabulação dos dados brutos fornecidos pelo MEC (Ministério da Educação).
Em um ranking sem levar em conta o porte da escola, seis das dez maiores médias são de escolas com menos de 50 participantes na prova. As duas maiores médias, do Colégio de Aplicação Farias Brito (CE) e do Objetivo Integrado (SP), tiveram 34 e 44 alunos na prova, respectivamente.
O Farias Brito, tradicional grupo educacional do Nordeste, trata o Colégio de Aplicação como uma escola independente. Mas na prática, são turmas formadas com os melhores alunos de outras unidades, selecionados desde o 6º ano.
Os funcionários têm dificuldade de indicar onde ficaria a escola de aplicação e no site não há informações. Mas um anúncio sobre o resultado está lá: "1º do Brasil no Enem. É o MEC que diz".
Ao todo, nessa unidade, são 223 alunos, com duas turmas nos 1º e 2 º anos do ensino médio, e uma no 3º. Ou seja: estudantes com nota ruim passam a não fazer parte no 3º ano."Esses jovens são beneficiados porque estão dentro do centro universitário, utilizam os laboratórios, alguns professores são os mesmos. Somos procurados por jovens de todo o Brasil", disse Tales de Sá Cavalcante, 67, diretor-geral da organização.
As notas dos 44 alunos registrados na unidade de aplicação garantiram uma média de 743,42 na parte objetiva, a mais alta do país. Já as outras quatro unidades do Farias Brito, também em Fortaleza, têm notas inferiores.
A maior unidade do grupo, o Colégio Central Farias Brito, com 388 alunos no Enem 2016, teve média 603,22. O que deixa a unidade na 452ª posição no ranking que leva em conta apenas escolas com mais de 61 alunos.
Pioneiro nessa estratégia, o Objetivo criou a unidade Integrado em 2010. O endereço é o mesmo da escola tradicional, na avenida Paulista.
Com as notas dos 44 alunos que fizeram a prova em 2016, a média foi de 743,21. Sem nenhuma filtro, é a segunda maior do país. A escola segue o mesmo rito: turmas com bons alunos são formadas no 1º ano, mas só uma classe chega ao 3º ano.
Segundo o diretor, José Augusto Nasser, isso foi uma demanda de alunos com foco nos em vestibulares difíceis.
"Quando faz um colégio com uma completa diferenciação, com aulas à tarde, é algo totalmente diferente. A ideia não foi para ser primeiro lugar do Enem", afirma Nasser. "O número de alunos diminui porque nem todos aguentam o ritmo".
O diretor questiona o resultado dos dados oficiais. Três participantes estão cadastrados no Enem 2016 com sendo da escola, mas não constam como matriculados no 3º ano. "Com a média só dos nossos 41 concluintes, ficamos em primeiro".
Com 331 alunos na prova, o Objetivo Unidade Paulista teve média de 620,89. O que a coloca na 199ª entre as escolas com mais de 61 alunos.
Levando em conta esse critério de porte de escola, o melhor desempenho foi alcançada pelo Colégio Bernoulli (MG). Os 312 alunos tiveram média de 730,6 nas objetivas e 843,6 na redação.
"Qualquer escola é muito mais complexa e abrangente do que o resultado do Enem, mas ele tem valor porque consegue dizer como a turma está em termos dos conhecimentos que são cobrados", diz o diretor, Rommel Domingos.
BALANÇO DO ENEM 2016Desempenho de todas as escolas do país com 61 alunos ou mais no terceiro ano do ensino médio
PANORAMA
Ocimar Alavarse, professor da USP, diz que é importante lembrar que a média da escola não representa necessariamente o aluno individualmente. "Esse ordenamento dá uma ideia da distribuição do conhecimento na sociedade e também que o nível socioeconômico continua atuando".
Entre as escolas com nível socioeconômico abaixo do "médio", a mais bem colocada aparece na 950ª posição. É o Colégio Estadual Chico Anysio, do Rio.
Na capital paulista, a pública mais bem colocada é a Etesp (Escola Técnica São Paulo), com alunos de perfil socioeconômico "muito alto".
A média foi de 652,75 na parte objetiva, a 87ª no país. A unidade não é gerida pela Secretaria Estadual de Educação, mas pelo Centro Paula Souza. "Nossos alunos já chegam preparados e respondem bem ao processo educacional, que procura ser mais crítico dentro dos componentes curriculares", diz Natalia Caruso, umas das coordenadoras da escola.