23 de abril de 2017

Os sofrimentos dos jovens – e de seus pais


Desde o início de abril, uma aflição silenciosa tem assombrado pais de crianças e adolescentes. A divulgação de reportagens sobre investigações que apuram suicídio e ferimentos de jovens, estimulados por jogo na rede mundial de computadores, acendeu o sinal de alerta.
No "desafio da baleia azul", o participante se propõe a cumprir 50 tarefas, das quais vai sendo informado aos poucos, sempre às 4h20 da madrugada. As primeiras se resumem a ficar 24 horas sem dormir assistindo a filmes de terror, ou a passar o dia sem falar com ninguém. Os desafios crescem, incluindo escrever frases e fazer desenhos com lâminas na pele, subir no alto de edifícios, mutilar partes do corpo. A última "missão" é tirar a própria vida.
O jogo foi citado pela primeira vez na Folha na coluna de Marcelo Coelho em 12 de abril. De lá para cá o tema foi tratado mais por colunistas do que em reportagens, capazes de ir além da opinião e de buscar linhas investigativas próprias.
A polícia de ao menos quatro Estados investiga se casos de suicídio e de mutilações têm relação com o jogo, além da atuação de pessoas que seriam aliciadores. Um deputado federal apresentou projeto de lei que prevê pena maior para quem induzir ou instigar por meios digitais a automutilação e o suicídio.
Até a página dedicada à questão do suicídio na edição de sábado, o principal texto que a Folha havia publicado na edição impressa saíra em 15 de abril sob a vinheta "opinião", sinalizando que não era uma reportagem.
Tratava-se de adaptação de coluna da repórter especial Cláudia Colucci, publicada no site na véspera. Na crítica interna, considerei tal procedimento equivocado, porque mais do que opinião existia ali contextualização fundamental.
Na avaliação do secretário de Redação, Vinícius Mota, o caso fica na fronteira entre a opinião e a reportagem analítica. Para ele, "havia recomendações diretas da autora a pais e leitores sobre como agir diante de uma suspeita, linguagem mais típica de textos de opinião".
Era possível adequar a redação de modo a não dar ao leitor a sensação de ler um desabafo ou uma opinião. A fusão de informação e análise é a meta mais perseguida pelo jornalismo para diferenciar-se de relatos crus da internet.
Há muita coisa nebulosa em torno do tema. A começar pelo tabu de que a imprensa não noticia suicídios. Se para alguns a divulgação pode provocar uma onda, para outros é questão de saúde, que deve ser discutida abertamente.
Na Folha, segundo Mota, não há diretriz específica. "Depende do potencial noticioso implícito em cada caso, avaliado por exemplo pelo interesse público e pela reação que desperta nos leitores. Debates sobre o tema tampouco obedecem a regime especial de publicação."
A ideia de que a divulgação de suicídio pode gerar efeito de imitação foi verificada pela primeira vez por influência de uma obra literária. "Os Sofrimentos do Jovem Werther" (1774), de Johann Wolfgang von Goethe, narrava as desventuras do protagonista que, rejeitado pela amada, decide dar cabo da própria vida com um tiro. Em pleno romantismo, jovens europeus repetiram o gesto, caindo ao lado de exemplares do romance.
O tratamento adequado e rigoroso da notícia é a forma que os jornais têm para evitar o "efeito Werther". Mas outras questões necessitam ser investigadas. A principal delas é a comprovação ou não de elementos de vinculação de suicídios ao engajamento no Baleia Azul.
O jornal investigativo russo "Novaya Gazeta" informou ter computado 130 suicídios de adolescentes entre novembro de 2015 e abril de 2016. "Quase todos eram integrantes de grupos da internet e viviam em famílias boas e felizes", apontou.
O psiquiatra Daniel Martins de Barros contou, no jornal "O Estado de S. Paulo", que o site de verificação de boatos Snopes.com trilhou o caminho da história de trás para frente, chegando à notícia original, publicada pelo "Novaya Gazeta", e mostrou como era recheada de inferências e suposições.
Em fóruns de hackers, há teorias conspiratórias que atribuem o jogo e sua associação a mortes de internautas a governos autoritários interessados em produzir pânico. O objetivo seria fomentar apoio à imposição de vigilância, limitações e censura nas redes sociais.
O assunto requer cuidados, é de interesse amplo e comporta muitas linhas a serem investigadas. É um tema da nova era da sociedade de informação digital, que abre possibilidades para os jornais demonstrarem por que são e sempre serão socialmente relevantes. 

Todos leem o tempo todo, mas nada além de pedaços de frases, Cristovão Tezza


Vânia Medeiros
Em pouco mais de seis décadas de vida, passei do fogão a lenha da infância para este computador em que inauguro a coluna, o que faz de mim um brasileiro típico: um pé firme ainda no século 19, e outro inseguro no século 21, aparentemente sem ter vivido de fato o trepidante meio tempo do século 20, que, para quem veio depois das guerras, parecia só uma passagem do campo para a cidade.
Como as coisas vão acontecendo todas ao mesmo tempo, é difícil enxergar os detalhes do dia a dia.
Em algum momento a literatura tornou-se a medida da vida para mim, primeiro como leitor, depois como escritor. Como todo mundo, fui formatado (para usar esta palavra exata e violenta) na adolescência, o que no meu caso coincidiu com a formatação especial dos anos 1960.
Olhando o mundo pelo umbigo, parece que tudo que temos hoje já estava ali: os Beatles, a fúria da esquerda, a pílula anticoncepcional, a fúria da direita, o imperialismo ianque, o desmatamento da Amazônia, Fidel Castro, os gurus, o muro de Berlim, a maconha, os mísseis, o aparelho de TV, o bom selvagem, a viagem à Lua, a descoberta dos outros, o teatro experimental, a implosão da família.
Naquele miolo do tempo comecei a escrever -à mão, é claro, texto artesanal sobre papel, a escrita como um prolongamento físico da alma, de modo a não me deixar contaminar pelas máquinas que alienam a vida autêntica- eu acreditava piamente nisso. Aliás, eis um traço da minha geração, naquele momento: acreditar era um verbo intransitivo. Acreditava-se.
Nas décadas seguintes, enquanto o Brasil era arrastado para trás, continuei escrevendo à mão, ainda que com o olho espichado para o requinte da máquina de escrever, enquanto tentava comprar um telefone.
Em seguida, desiludido com as utopias tribais, pesquisei as possibilidades do tal do computador, via contrabando, enquanto nossos governos todos faziam o diabo para impedir que brasileiras e brasileiros fôssemos corrompidos pelo horror da informática e pelo controle mundial do Windows.
De repente, a revolução digital explodiu. A paquidérmica máquina movida a disquetes se transformou numa onipresença opressiva. A primeira coisa que vem à cabeça é o óbvio: goste-se ou não, trata-se de uma revolução inexorável e irreversível, embora com certeza surjam no futuro (talvez já existam) seitas neoanalógicas pregando a morte ao wi-fi, assim como já existe a dieta paleolítica —mas são só as clássicas exceções de referência.
Não é o meu caso: para compensar o atraso, tornei-me um viciado em traquitanas digitais, tomado de um sentimento literariamente otimista: o acesso universal e instantâneo à informação e aos livros que a internet permite representava a realização de uma pura utopia.
Além disso, a era da televisão, que dos anos 1970 aos 1990 civilizava um país iletrado apenas pela oralidade, agora cedia lugar à era da internet e jogava o Brasil inteiro no mundo da escrita. Num estalo, milhões de pessoas que jamais leram ou escreveram nada estavam lendo ou escrevendo alguma coisa em milhões de telinhas e teclados. Um potencial civilizatório gigantesco, o triunfo final da palavra escrita, um salto maravilhoso na educação do país, imaginava eu.
Mas, em pouco tempo, comecei a perceber que havia alguma coisa errada na minha equação mecânica: aparentemente, todos leem o tempo todo, mas nada além de manchetes, pedaços de frases e caixas de comentários.
O problema é que a internet não é apenas um meio, a máquina fantástica de uma gravura iluminista, ou o belo dragão chinês de alguma biblioteca universal, como sonhava este escritor do século 19. Ela até pode ser estes objetos hipnóticos —são suas iscas.
Mas não produz nada: é apenas (apenas?) um ambiente inescapável de sentidos e relações que vem desestruturando todos os aspectos consolidados da vida pré-internet com uma rapidez e uma simultaneidade assustadoras. Nesse sentido, somos cobaias mutantes de um momento brutal de transformação tecnológica.
Mas continuo otimista: passado este terremoto, os gremlins que hoje se estraçalham aos urros na quarta dimensão voltarão à terra firme para descobrir as delícias do silêncio visual, da mudez tranquila e da leitura prolongada. 


A base do ensino

EDITORIAL


Há muito esta Folha defende que se esgotou o tempo para teorias inócuas, experimentação sem propósito e condescendência pedagógica no ensino público.
Com o Brasil amargando sucessivos desempenhos vexatórios em leitura, ciências e matemática na prova internacional Pisa, parece evidente que a educação nacional estacionou num patamar muito baixo de qualidade.
Um passo necessário se dá agora com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Pelo menos o ensino fundamental, do primeiro ao nono ano, contará em breve com um conjunto definido de objetivos de aprendizado; em mais alguns meses, será a vez do ensino médio.
Apesar de certos desvios pelo caminho, a BNCC traça um bom roteiro para o que é mais urgente: retornar ao básico (sem trocadilho). E o fundamento, em educação, jamais se firmará sem o domínio de escrita e leitura, de operações triviais da matemática e de noções gerais de ciências.
Contar com um itinerário permite que professores, alunos, pais e dirigentes saibam aonde se almeja chegar. Para não desperdiçar mais tempo, recomenda-se aprender com a experiência de países bem-sucedidos nessa empreitada.
Assim, parece mais prudente voltar-se para Portugal do que, por exemplo, para a Finlândia. Essa talvez seja a lição principal a extrair da entrevista com Nuno Crato, matemático e ex-ministro da Educação luso, publicada neste jornal.
A Finlândia vinha obtendo resultados primorosos e, com a excelência alcançada, lançou-se numa reformulação audaz do ensino, com menor peso para disciplinas tradicionais. Tardará um pouco saber que resultados serão colhidos; de imediato, porém, houve algum recuo nas notas do Pisa.
Portugal está em muitos sentidos mais próximo da realidade do Brasil. Não só pela língua, que decerto facilitará o intercâmbio de experiências, mas também por sua posição na Europa —periférica, como a do Brasil no mundo.
Lá como cá, faltava retornar ao chão. Crato conta que seu país passou a dar prioridade para português e matemática e aumentou o rigor na seleção de professores. E vieram resultados estimulantes.
Em 2015, o desempenho de alunos portugueses no Pisa melhorou e ficou à frente, por exemplo, de Estados Unidos e Espanha.
Não se trata de menosprezar história e geografia, nem sociologia ou filosofia. Mas Crato chama a atenção para o óbvio: o aluno que lê mal não progredirá nessas matérias —menos ainda se as aulas a que assiste se nortearem pelo princípio de que se deve estudar apenas aquilo de que se gosta.
Não, há coisas que todo estudante precisa aprender e saber. Esse é o sentido da base curricular.

22 de abril de 2017

A violência como parte da rotina de escolas do Rio




por Deutsche Welle — publicado 22/04/2017 
Confrontos levaram ao fechamento de colégios da cidade em 157 dos 200 dias letivos de 2016

Tânia Rêgo / Agência Bras
Manifestacao_Morte_002-768x499.jpg
Protesto contra a morte de Maria Eduarda, no Rio, em 3 de abril. Mais uma vítima da guerra às drogas

Por Roberta Jansen
As aulas ainda não foram retomadas na escola municipal onde a menina Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, foi morta por uma bala perdida, na favela de Acari. Poderia ser uma exceção diante da tragédia do assassinato da adolescente dentro do colégio onde estudava, mas hoje, no Rio de Janeiro, o fechamento de escolas é comum em meio à violência nas comunidades mais pobres. 
Sem a presença do estado e diante dos enfrentamentos cada vez mais frequentes entre policiais e traficantes, a solução, muitas vezes, tem sido simplesmente fechar as portas das escolas e deixar os alunos em casa. O secretário municipal de Educação, Esporte e Lazer, Cesar Benjamin, reconheceu a situação anômala vivida na cidade em postagem no Facebook, logo após a morte de Maria Eduarda.
"Infelizmente, essa tragédia não foi um fato isolado. Somente ontem, sexta-feira, 31 de março [um dia depois da morte de Maria Eduarda], a violência provocou o fechamento de 25 escolas em diversos bairros e comunidades, deixando 6.227 alunos sem aulas", escreveu o secretário.
"Três outras escolas abriram, mas nenhum aluno compareceu por falta de segurança nas imediações de cada uma delas. Essa situação tem se repetido todos os dias", prosseguiu.
De acordo com a Secretaria Municipal de Educação, em 157 dias dos 200 do ano letivo 2016, pelo menos uma escola – de um total de 1.537 da rede municipal – ficou impedida de funcionar por estar em área conflagrada. Mais de 115 mil alunos perderam pelo menos um dia de aula por causa da violência. 
Enquanto o secretário busca negociar com a Secretaria de Segurança uma saída para o problema, a solução apresentada pelo prefeito Marcelo Crivella espantou muita gente: blindar as escolas em áreas de risco.
Bunkers para traficantes
Para especialistas, a criação de espaços blindados dentro de comunidades violentas serviria apenas para oferecer a traficantes verdadeiros bunkers onde poderiam se abrigar e enfrentar a polícia, ou mesmo outras quadrilhas, sem o risco de serem atingidos. Ou seja, a segurança dos alunos continuaria em risco.
"A escola, por definição, deve ser um espaço público aberto, reconhecido pela comunidade como tal, ou deixa de cumprir a sua missão pedagógica", afirma Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e especialista em educação e segurança pública. "Blindar a escola é deixar de atacar a raiz do problema e oferecer aos traficantes um escudo na guerra às drogas."
A empresa americana Gigacrete, com sede no Texas, seria a fornecedora da argamassa especial usada para a blindagem dos muros de 400 escolas situadas em regiões consideradas de risco. A prefeitura não informou como a companhia seria contratada nem o custo da obra – que, segundo especialistas brasileiros, pode ultrapassar o valor de 3 mil reais por metro quadrado.
"Trata-se de uma medida esdrúxula, anunciada no calor da emoção ou pela necessidade de apresentar uma solução mágica para o problema", criticou o diretor da Associação Brasileira de Educação, Edson Nunes, pró-reitor de Planejamento e Desenvolvimento da Universidade Cândido Mendes. 
"Entendo a preocupação do prefeito de proteger as crianças, mas o problema que estamos enfrentando não tem a ver com o fracasso das paredes das escolas", acrescentou.
Fim de ações policiais
Na segunda-feira 17, o Ministério Público do estado do Rio de Janeiro (MPRJ) ofereceu denúncia contra dois policiais acusados do homicídio doloso de dois traficantes em frente à Escola Municipal Escritor e Jornalista Daniel Piza, onde Maria Eduarda estudava.
Segundo a denúncia, os traficantes estavam caídos, feridos em decorrência de confronto com os militares, quando os policiais fizeram disparos de fuzil à queima-roupa que resultaram na morte dos dois junto ao muro da escola onde Maria Eduarda foi atingida. Ela participava de uma aula de educação física na quadra do colégio no momento da troca de tiros.
Para o sociólogo Ignácio Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a única forma de reduzir o risco para moradores e estudantes de comunidades violentas é impedir os confrontos perto das escolas. A polícia, diz ele, não pode trocar tiros com traficantes nesses ambientes.
CC_Pezao_familia_02-768x512.jpg
Luiz Fernando Pezão (PMDB), governador do Rio, com familiares de Maria Eduarda. A guerra às drogas persiste (Foto: Clarice Castro / GERJ)
Denise Carreira, coordenadora executiva da ONG Ação Educativa e uma das autoras do relatório Educação e violência armada, de 2008, também acredita que não pode haver esse tipo de ação policial. Segundo ela, que foi relatora nacional de educação entre 2001 e 2012, um dos argumentos usados pelos policiais é que os traficantes atuam nesses horários nas escolas, mas outras ações preventivas poderiam ser adotadas. 
Para Ibis Pereira, ex-comandante da Polícia Militar do Rio de Janeiro, a proposta de blindar escolas é "uma medida desesperada". "Precisamos de uma política de segurança que priorize a vida. Estamos priorizando o enfrentamento, a guerra às drogas, e não a preservação da vida e a redução das taxas de homicídio", afirma, também defendendo que não haja operações policiais em horários de funcionamento das escolas.
Cara considera que a solução é coletiva e deve abarcar diferentes setores: postos de saúde, escolas, associação de moradores, policiais. "Além de parte da sociedade civil que está fora das comunidades, mas se preocupa com o que acontece lá dentro."
"Medidas demagógicas, como blindar muros, ajudam no processo de popularidade dos gestores, mas muito pouco em termos de realmente resolver os problemas da comunidade", afirma.
Apesar de ainda não haver aulas na escola onde Maria Eduarda morreu, alguns alunos e professores retornaram ao colégio esta semana para reuniões e atividades lúdicas, numa tentativa de ajudar a comunidade a lidar com o trauma do assassinato. Na fachada da escola, cartazes pedem justiça.

Logo DW

Falta una política docente integral

Otra contribución excelente de Tedesco!!!

PARA LA NACION
VIERNES 21 DE ABRIL DE 2017

Asistimos, como todos los años desde hace ya más de una década, al debate salarial docente aislado de las otras variables y dimensiones. Es absolutamente necesario romper esta lógica y salir de la coyuntura.
La dirigencia gubernamental debe dejar la hipocresía de considerar a la educación el factor clave para superar la pobreza, garantizar la movilidad social, la competitividad genuina y la formación de los ciudadanos del siglo XXI y luego asignar recursos sobre la base de un punto más o menos según la inflación. Si es cierto que la educación puede promover todas esas dimensiones, debe ser la prioridad en la asignación de recursos. Un aumento significativo de recursos es condición necesaria para colocar el debate en otro lugar. Ese aumento debe incluir salarios, pero en un contexto más amplio que considere, al menos, condiciones de trabajo, formación inicial y continua, carrera docente y evaluación de desempeño.
Las condiciones de trabajo tienen dos componentes principales: infraestructura y equipamiento didáctico. Muchos docentes se desempeñan en edificios que no reúnen las condiciones mínimas para garantizar el proceso de enseñanza y aprendizaje. Pero además, si queremos avanzar en la meta de la jornada extendida o completa hay que construir más edificios y aulas. Para planificar esta política es necesario disponer de información. Hace ya más de diez años se diseñó desde el Ministerio de Educación un censo de infraestructura escolar. Nadie sabe si se llevó a cabo y cuáles fueron sus resultados.
Respecto del equipamiento didáctico, no alcanza con repartir computadoras que suelen usarse poco y mal. Hay que mejorar la conectividad, introducir laboratorios para la enseñanza de ciencias, textos, acceso a bibliotecas digitales, material deportivo y recursos para las disciplinas artísticas.
Foto: LA NACION
En la formación inicial y continua también es preciso introducir cambios profundos. Enseñar hoy, en contextos de enorme desigualdad social y diversidad cultural, es mucho más difícil que en el pasado. Necesitamos estrategias para los formadores de docentes que les permitan brindar una sólida formación técnica acompañada de acciones que den contenido a la cultura del ejercicio de la profesión docente basada en la adhesión a la justicia social, el trabajo en equipo, la confianza en la capacidad de aprendizaje de nuestros alumnos y la responsabilidad por los resultados. La formación continua requiere salir del curso de capacitación como único dispositivo. Todas las encuestas al respecto indican que tienen muy bajo impacto. Los docentes aprenden por su cuenta, con los colegas o -si el director tiene iniciativas- con el equipo docente. Hay que fortalecer estas modalidades sacándolas de lo informal, brindando asistencia a procesos de autoevaluación y promoviendo capacitación en la escuela y en equipo. La evaluación de desempeño tiene que estar asociada a la formación. Todos sabemos que evaluar es la última etapa del proceso de enseñanza.
La carrera docente es una exigencia legal. La ley nacional de educación es muy clara al respecto. Se mantiene la vía tradicional según la cual si un docente quiere ascender puede hacerlo a puestos directivos, pero abre una nueva vía de ascenso sin dejar el aula. Una parte del salario debería estar asociada a la carrera, que puede ser aplicada en forma gradual: obligatoria para los que ingresan y voluntaria para los que ya están en servicio.
Por último, quisiera señalar que existen lugares y zonas del país donde debería utilizarse el artículo de la ley que permite declarar la emergencia educativa, aplicando medidas que le permitan al Ministerio de Educación nacional actuar con intervenciones que salen de la normativa habitual. Ya disponemos de información para avanzar en este terreno, pero falta voluntad política para hacerlo.
Obviamente, todo esto exige plazos, pero ponerlo en la mesa de debate permitiría salir de la discusión coyuntural que se repite todos los años y volverá a repetirse el próximo. El debate debe incluir otros actores -partidos políticos, académicos, organizaciones no gubernamentales- además de los gremios. Hoy ya hay voces que reclaman este debate, pero para avanzar hay que superar los meros títulos y ponerles contenido a las propuestas. Quiero recordar que todo esto ya estaba en el Plan Decenal de Educación elaborado en 2010 por la UPEA (Unidad de Planificación Estratégica de la Educación). Perdimos casi una década. No perdamos la próxima.
Ex ministro de Educación de la Nación

More Cartoons on Using Technology by larrycuban

Yeah, I know I have been showing lots of cartoons about using technology. But I cannot help myself since I do laugh at how technologies have penetrated our (I include myself) lives. Taking a step back to laugh at ourselves as immoderate users of new technologies is, I believe, healthy. So enjoy this batch of cartoons.
epic.jpg
_X9w5VbVEbQafE0ULJYKtAG-qsC1dY2co89gpUgfu2aIp9gg_qUwgzpWT1kEL_CpDXxZie9rF_J449F8yfDQiP4LnX7nURaxPezTy_hN4VwT3IfHe_HM_MlSPUiVJJSOFg.png
13a37862504a355cb3c78b7fffe2494262bde26e.jpgimages.jpg
sherlock_homes_cartoon.jpg
wearable-technology-708x559.gif
nyorker_cartoon__0.jpg1896-Bertram-2-8-1.jpg
dilbert-user-requirements.gif
slide_image_britannica0326-100324082-gallery.idge.jpg
c2.gif
larrycuban | April 22, 2017 

PISA 2015 Results

The following OECD publications are hot off the press!:
More information
PISA
PISA 2015 Results (Volume III)
Students' Well-Being
The OECD Programme for International Student Assessment (PISA) examines not just what students know in science, reading and mathematics, but what they can do with what they know. Results from PISA show educators and policy makers the quality and equity of learning outcomes achieved elsewhere, and...

Brincadeiras macabras não são novas, mas desviamos atenção das causas

luís francisco carvalho filho
É advogado criminal. Foi presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos instituída pela Lei 9.140/95. Escreve aos sábados,
a cada duas semanas.


Divulgação
Painel pintado por alunos do 4º ano de medicina da uSP no subsolo da faculdade; umespaço exclusivo aos estudan.
Painel pintado por alunos do 4º ano de medicina da USP no subsolo da faculdade
Autoridades e médicos mobilizam o noticiário e as rede sociais em torno de tema desconcertante e cercado de mistérios que a humanidade ainda não decifrou, o suicídio.
Baleia Azul é o nome de um jogo que circula entre jovens: um "curador" lança 50 desafios sucessivos e monitorados para os participantes, como escrever siglas na palma da mão, cortar o braço com lâmina, assistir a filmes de terror, ferir os lábios, subir no telhado e se dependurar, não falar com ninguém o dia todo, até o derradeiro, tirar a própria vida.
Originário da Rússia, o jogo sinistro chegou ao Brasil. Como o Código Penal pune a instigação e o auxílio ao suicídio com pena de dois a seis anos de reclusão, aplicada em dobro quando a vítima é menor de idade, delegados de polícia procuram eventuais vínculos com tentativas recentes de jovens em alguns Estados.
Vídeo do prefeito Rafael Greca (PMN), de Curitiba, alerta para os perigos desta "praga moderna", capaz de capturar adolescentes. Quer o envolvimento da Polícia Federal e o cuidado protetor de famílias e escolas. A delegada do Rio de Janeiro responsável pelas investigações locais fez apelo dramático aos pais: "Caso notem um comportamento diferente, que procurem a polícia o mais rápido possível".
Na série "13 Reasons Why", recentemente lançada pela Netflix, a jovem personagem deixa fitas gravadas dando conta das 13 razões pelas quais ela se mataria. Romantiza o assunto, faz sucesso e gera controvérsias.
Psiquiatras têm entendimentos diversos. Para Luís Fernando Tófoli, da Unicamp, pais e educadores devem estar cientes de que a série "tem o potencial de causar danos a pessoas emocionalmente fragilizadas". Diz não ser absurdo considerar que, em alguns casos, possa induzir ao suicídio e que pessoas em situação de risco devem ser desencorajadas a assisti-la.
Daniel Martins de Barros, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, recomenda a precaução de todos, mas reclama do não aproveitamento do "gancho para discutir seriamente o suicídio" e da criação de "pânico em torno de um seriado, de um jogo, de uma moda qualquer", que não são culpados pelos acontecimentos. Pergunta se o adolescente seria tão estúpido a ponto de se matar porque o jogo mandou.
Brincadeiras macabras não são novidade e a roleta russa é apenas um exemplo. Adolescentes sofrem e adquirem, sim, comportamentos diferentes e, no século 21, a taxa de suicídio entre jovens tem viés de alta. Censurar o seriado e prender os "curadores" do jogo Baleia Azul resolveriam o problema?
Temos o hábito de desviar para as coisas a atenção que deveria se direcionar para as causas.
Em virtude do apelo emocional das mensagens de autoridades, como se estivéssemos na iminência de que algo pudesse acontecer em qualquer lugar e a qualquer momento, e do próprio sentimento de impotência gerado pelo descontrole instantâneo da internet, pode-se estimular ainda mais a curiosidade desassistida, os conflitos geracionais e a assombração virtual.
É caso de polícia? Aquele que tenta acabar com a própria vida, jovem ou adulto, não tem nas delegacias, sem preparo profissional e focadas na investigação burocrática, a porta de entrada adequada para o acolhimento médico que necessita. 

Em 60 países, cientistas vão às ruas contra 'fatos alternativos' neste sábado


Jessica Rinaldi - 19.fev.2017/The Boston Globe/Getty Images
Em fevereiro, pesquisadores fizeram protesto em Boston, durante congresso científico
Em fevereiro, pesquisadores fizeram protesto em Boston, durante congresso científico
Os organizadores da Marcha pela Ciência, marcada para este sábado (22) em Washington e em cerca de 570 outras cidades em 60 países, cuidadosamente não fazem, em seu site, qualquer referência direta ao presidente Donald Trump. O temor era diminuir o potencial de adesão, já que cientistas geralmente preferem manter distanciamento da política.
Será difícil, porém, evitar que as manifestações em todo o mundo se tornem um claro movimento contra o presidente que já classificou o aquecimento global como farsa e quer cortar quase um quinto das verbas federais para pesquisa médica nos EUA.
Todo o material de divulgação no site www.marchforscience.com prega que a marcha será "apartidária" e que o objetivo é conscientizar "líderes políticos a tomar decisões com base em evidências científicas" –um recado indireto a negacionistas como Trump.
Os líderes da manifestação –pesquisadores e consultores que se uniram em janeiro para organizar a marcha– se defendem das críticas de que cientistas não deveriam se envolver em protestos.
"Diante de uma tendência alarmante de desacreditar o consenso científico e restringir a descoberta científica, devemos nos perguntar se podemos nos dar ao luxo de não levantar a voz", diz o grupo.
O cientista Steven Pinker, da Universidade Harvard, foi um dos que primeiro questionou a realização da manifestação. "O plano da marcha dos cientistas em Washington compromete seus objetivos com uma retórica de esquerda", escreveu no Twitter.
Outros cientistas temem que os atos aumentem a politização de seu trabalho, afirmando que a ciência precisa ser isenta.
Para Rush Holt, presidente da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), uma das mais importantes entre as 220 organizações do país que devem se juntar à marcha, os cientistas não devem dar como certo que a razão irá prevalecer no cenário político se eles não forem às ruas em defesa da pesquisa.
"Estamos defendendo a ciência e seu papel na sociedade, não uma ideologia particular. Evidências comprovadas cientificamente devem ser usadas como base para decisões políticas", disse Holt à Folha.
Apesar de afirmar que a marcha não é "fundamentalmente sobre Donald Trump", Holt diz não haver dúvidas de que há uma "preocupação" entre a comunidade científica nos últimos meses.
"Se funcionários públicos dizem que fatos alternativos são equivalentes a fatos reais ou que opinião é equivalente a evidências, ou que a evidência é opcional, então é hora de falarmos sobre isso", diz.
Entre as presenças confirmadas, estão a bióloga Lydia Villa-Komaroff, que ajudou a descobrir o processo pelo qual bactérias podem produzir insulina humana, o "science guy" Bill Nye, e Christiana Figueres, secretária-executiva da ONU para a Convenção do Clima, uma das arquitetas do Acordo de Paris.
Para Villa-Komaroff, que discursará em Washington, o prestígio da ciência acabou sendo reduzido nas últimas décadas. "Tudo indica que estamos em um ponto crítico. E os cientistas têm de defender a ciência", disse à Folha. "Os cientistas em geral não se sentem confortáveis com a ideia de marchar na rua. Eu penso que toda atividade humana tem aspectos políticos."
Entre os pontos criticados por quem vai às ruas com o objetivo claro de protestar contra Trump, estão suas propostas de cortar 18% das verbas federais para os Institutos Nacionais de Saúde, responsáveis por desenvolver pesquisas contra o câncer e outras doenças, e 31% do orçamento da Agência de Proteção Ambiental (e um quarto de seus 15 mil funcionários).
Também deve entrar na pauta dos protestos o decreto de Trump que reverteu decisões tomadas pelo governo de Barack Obama para frear o aquecimento global, definindo, por exemplo, o desmantelamento do Plano de Energia Limpa, que restringe a emissão de gases por usinas a carvão.
O republicano havia ainda ameaçado, durante a campanha, tirar os EUA do Acordo de Paris sobre o clima. A promessa ainda não se concretizou, mas Trump chega perto de tornar inatingível a meta de cortes de emissões de gases-estufa ao impulsionar a indústria do carvão.
A marcha dos cientistas ocorre uma semana antes da Marcha Popular pelo Clima, organizada no próximo dia 29, também em Washington, que tem um perfil declaradamente mais político. Os organizadores das duas marchas dizem não haver coordenação entre elas, apesar de as equipes estarem "em contato".
"Precisávamos de uma mobilização contra os ataques de Trump aos nossos clima e comunidades", diz o Movimento Popular pelo Clima, responsável pela segunda manifestação, em comunicado. E

21 de abril de 2017

Precisamos falar sobre suicídio de jovens: taxa cresce no Brasil


A taxa de suicídio entre os jovens brasileiros está crescendo mais do que 

a média nacional. O assunto ainda é tabu e exige a atenção de pais e responsáveis

Na série 13 Reasons Why, que estreou no dia 31 de março na Netflix, o adolescente Clay Jensen (Dylan Minnette) descobre fitas cassete gravadas pela paquera Hannah Baker (Katherine Langford), que se matara duas semanas antes. Nos áudios, a menina explica as 13 razões pelas quais decidiu dar fim à própria vida. Será que o garoto estaria na lista? A narrativa se desenrola com base nessa dúvida, tratando de um tema delicado e complexo: o suicídio de jovens.
Em 2013, uma adolescente gaúcha de 16 anos se matou depois que fotos íntimas dela foram divulgadas na internet. Após alguns meses, outra garota, de 17 anos, se suicidou no Piauí pelo mesmo motivo. Muitos outros casos acabam abafados, mas as estatísticas confirmam o crescimento.

Entre 1980 e 2012, as taxas de suicídio cresceram 62,5% na população em geral. Na faixa etária dos 15 aos 29 anos, a média aumenta em ritmo mais rápido do que em outros segmentos. São 5,6 mortes a cada 100 mil jovens (20% acima da média nacional). Os dados são da pesquisa Violência Letal contra as Crianças e Adolescentes do Brasil e do Mapa da Violência: os Jovens do Brasil, ambos coordenados pelo sociólogo Julio Jacopo Waiselfisz, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), organismo de cooperação internacional para pesquisa.
O aumento do número de mortes de jovens está na contramão do observado em países da Europa ocidental, Estados Unidos e Austrália, onde os índices vêm caindo. “Os suicídios vêm crescendo à sombra dos dois gigantes de nossa mortalidade violenta: os acidentes de trânsito e os homicídios. É preciso jogar luz sobre esses dados”, defende Waiselfisz.
O psiquiatra Neury José Botega, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), concorda. “Como o suicídio é um assunto tabu, podemos ficar com a impressão de que o problema não existe em grande magnitude. Mas isso não é verdade. Diariamente, segundo dados oficiais, 32 pessoas põem fim à vida. E podemos supor que o número real de suicídios seja, pelo menos, 20% maior do que isso”, diz ele.
Outro estudo, parte de um extenso programa de prevenção ao suicídio da Organização Mundial da Saúde (OMS) em várias partes do mundo, ajuda a compreender o fenômeno. O projeto envolveu um inquérito em nove cidades dos cinco continentes – no Brasil, foi em Campinas (SP), com 515 pessoas. A pesquisa identificou que, ao longo da vida, 17% das pessoas haviam pensado seriamente em suícidio, 5% tinham chegado a elaborar um plano para tanto e 3% efetivamente haviam tentado se matar. De três pessoas que tentaram o suicídio, apenas uma foi atendida em um pronto-socorro.
“As tentativas são mais comuns entre os mais jovens, que tendem a usar métodos de menor letalidade. Geralmente estão enfrentando situações de conflito interpessoal e têm menor estabilidade emocional e mais impulsividade”, explica Botega, coordenador do projeto no Brasil.

MOTIVOS NEM SEMPRE APARENTES

Quem tem adolescente em casa sabe: eles são os mais inclinados ao imediatismo e à impulsividade. Como ainda não atingiram a plena maturidade emocional, têm mais dificuldade para lidar com situações estressantes e frustrações – o que torna os pensamentos suicidas mais frequentes nessa população. Na maioria das vezes, porém, eles são passageiros, não indicam psicopatologia ou necessidade de intervenção.
No entanto, pensamentos dessa natureza mais intensos e prolongados, associados a um quadro de crise aguda, podem aumentar o risco de um jovem ir às vias de fato. Entre as principais causas de crises que poderiam desencadear o suicídio entre jovens estão baixa autoestima, histórico de abusos (incluindo aí o bullying), problemas para lidar com a própria sexualidade e reflexos da superproteção.
Diferenciar reações consideradas normais de sinais de alerta de que algo grave está por acontecer pode ser extremamente difícil. “Quem pensa em suicídio está passando por um sofrimento psicológico e não vê como sair disso. Mas não significa que queira morrer. O sentimento é ambivalente: a pessoa quer se livrar da dor, mas quer viver. Por dentro, vira uma panela de pressão. Se ela puder falar e ser ouvida, passa a se entender melhor”, diz Robert Gellert Paris, presidente do Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece apoio 24 horas pelo telefone 141 e pelo cvv.org.br.
Hoje, mais de 70% dos atendidos pelo chat do site têm menos de 30 anos. Para Paris, crises indicam que o jovem precisa de ajuda. “O suicídio é um processo, uma tentativa de se comunicar quando todas as outras já deram errado. Antes de efetivamente tentá-lo, a pessoa se isola, dá sinais de que algo não está bem”, explica ele.
Segundo a cartilha Suicídio, Informando para Viver, da Associação Brasileira de Psiquiatria, apenas 3% dos casos não podem ser relacionados a alguma doença psiquiátrica. Para todos os outros, há tratamento – 36% dos suicidas apresentam distúrbios de humor e 22% transtornos por uso de substâncias psicoativas. Por isso, é importante ficar atenta a mudanças no comportamento dos filhos (leia mais no quadro da página ao lado).

FORMAS DE PREVENÇÃO

De acordo com a OMS, é possível prevenir 90% dos casos se houver condições de oferecer ajuda. E, diferentemente do que apregoa o senso comum, discutir o problema é uma boa estratégia para combatê-lo.
O medo do chamado efeito Werther, referência ao livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, publicado em 1774, costuma empurrar o assunto para debaixo do tapete. No enredo, o personagem dá fim à própria vida após uma desilusão. A novela teria originado um surto de suicídios de jovens em diversos locais da Europa.
Mas a ideia de que falar sobre pessoas que se mataram pode induzir a fazer o mesmo não tem fundamento, segundo Botega: “Questionar, de modo sensato e franco, ideias de suicídio fortalece o vínculo com uma pessoa, que se sente acolhida e respeitada por alguém que se interessa por seu sofrimento”.
Assim, os pais podem (e devem!) falar sobre o assunto. Se não aparecer espontaneamente, ele pode ser introduzido de modo a deixar claro que certas coisas acontecem e que devemos conversar sobre elas. É possível dizer frases como: “Algumas vezes, quando nos sentimos mal, pensamos que seria melhor não ter nascido ou que seria preferível morrer. Você já teve pensamentos desse tipo?”. É fundamental ouvir com atenção e respeito, sem julgamento ou censura e sem preleções morais ou religiosas.
O importante é reafirmar a preocupação e o desejo de conversar e ajudar, mesmo que isso implique tocar em assuntos delicados. “O adolescente deve ser acolhido, receber proteção e apoio, e não castigo”, explica Paris. “É preciso respeitar a dor do outro. Muitas vezes, podemos achar a motivação banal ou desimportante, mas cada um sente e se angustia com as coisas de forma particular”, continua.
Mesmo os casos que indicam baixa letalidade, como cortes superficiais na pele, podem sugerir a ocorrência de tentativas futuras. “Não se deve banalizar ou julgar a tentativa como recurso para chamar a atenção. Na vida conturbada de um adolescente, o ato precisa ser tomado como um marco a partir do qual se iniciam ações destinadas à proteção e à qualidade de sua vida, incluídas as de saúde mental”, argumenta Botega. Após uma conversa, os pais devem avaliar se é o caso de encaminhar o filho a um profissional.
Para que essa aproximação familiar aconteça, alguns preconceitos devem ser desfeitos. Além do efeito Werther, é um equívoco pensar que ameaças são métodos de manipulação. Pense mais como um pedido de socorro. “Muitas pessoas que se matam dão previamente sinais verbais ou não verbais de sua intenção para amigos, familiares ou médicos. Ainda que em alguns casos possa haver um componente manipulativo, não se pode deixar de considerar a existência do risco de suicídio”, explica o psiquiatra Botega.
Outro lugar-comum errôneo é o chavão “Quem quer se matar se mata mesmo”. Lembre-se da ambivalência que caracteriza a complexidade da atitude: aqueles que pensam em suicídio frequentemente estão oscilantes entre viver ou morrer. Outro clichê é de que as tendências suicidas necessariamente vão acompanhar as pessoas por toda a vida, como se elas fossem “problemáticas”. O desejo ou a tentativa podem retornar, mas, talvez, passem. “Pessoas que já tentaram o suicídio podem viver, e bem, uma longa vida”, finaliza Botega.

ATENÇÃO AOS SINAIS

Saiba como identificar características de um jovem com tendências suicidas
  • Alterações significativas na personalidade ou nos hábitos;
  • comportamento ansioso, agitado ou deprimido;
  • queda no rendimento escolar;
  • afastamento da família e de amigos;
  • perda de interesse por atividades de que gostava;
  • descuido com a aparência;
  • perda ou ganho repentinos de peso;
  • mudança no padrão usual de sono;
  • comentários autodepreciativos recorrentes ou negativos e desesperançosos em relação ao futuro;
  • disforia (combinação de tristeza, irritabilidade e acessos de raiva);
  • comentários sobre morte, sobre pessoas que morreram e interesse pelo assunto;
  • doação de pertences que valorizava;
  • expressão clara ou velada de querer morrer ou de pôr fim à vida.

Nossa redatora-chefe Bel Moherdaui conversou com a psiquiatra Ivete Gattas sobre o assunto, veja: